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SOLTURA

Lula deve retomar agenda no PT e dar corda a candidatura

Por: FolhaPress

Publicado em: 09/11/2019 12:21

 (Foto:CARL DE SOUZA / AFP)
Foto:CARL DE SOUZA / AFP
Num recente congresso do PT de São Paulo, a plateia puxou o coro de "Lula inocente, Lula presidente".

Embora a libertação do ex-presidente esteja longe de significar o fim de seus problemas judiciais, a especulação sobre uma nova candidatura em 2022, quando o petista terá 77 anos, deve recomeçar imediatamente.

O ex-presidente foi libertado nesta sexta (8) após a Justiça Federal emitir alvará de soltura em razão da decisão tomada na véspera pelo STF de eliminar a possibilidade de prisão antes do esgotamento de todos os recursos.

Pessoas do entorno de Lula dizem que ele é o primeiro a encorajar a possibilidade de disputar novamente o Planalto. Como relatou um aliado próximo há alguns meses, "o rapaz de Curitiba [Lula] não pensa em outra coisa".

A saída da cadeia não absolve nem devolve os direitos políticos ao ex-presidente, no entanto, que ainda tem duas condenações e é réu em mais sete ações criminais. Para que Lula possa ser candidato, uma improvável sequência de eventos teria que ocorrer, incluindo absolvições, anulação de sentenças e a suspeição do ex-juiz Sergio Moro.

Lula passou 580 dias preso devido à condenação sob acusação de aceitar um tríplex em Guarujá como propina paga pela OAS em troca de três contratos com a Petrobras -o que ele sempre negou.

Essa condenação foi confirmada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), com pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias, e a defesa do ex-presidente apresentou recursos à corte.

O petista também foi condenado, até aqui apenas em primeira instância, no caso do sítio de Atibaia. Segundo a decisão judicial, ele recebeu vantagens indevidas da Odebrecht e da OAS em troca de favorecimento às empresas em contratos da Petrobras.

As reformas e benfeitorias realizadas pelas construtoras no sítio frequentado por Lula configuraram prática de corrupção e lavagem de dinheiro.

Pelas regras atuais, Lula é considerado ficha-suja, devido a ao menos uma condenação em segunda instância -a regra de corte estabelecida pela Lei da Ficha Limpa.

Petistas ouvidos em caráter reservado pela reportagem afirmam que a presença nas ruas de um Lula fortalecido traria o efeito colateral de interditar o debate sobre qualquer outra hipótese de candidato ou formação de uma frente de partidos de esquerda.

Com poucas exceções, a cúpula partidária sabe que a hipótese de o ex-presidente ter condições jurídicas de disputar o Planalto daqui a três anos é mínima. Mas é uma miragem que anima a militância e impede que um nome como o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad ou o governador da Bahia, Rui Costa, se coloque como opção realista.

De imediato, Lula deverá ter uma intensa agenda partidária agora que está livre e desimpedido para fazer política. Espera-se que ele compareça mesmo a eventos da legenda para os quais notoriamente nunca teve aptidão, como as reuniões do diretório e da executiva nacional marcadas para novembro.

Uma presença certa é no congresso do partido, entre 22 e 24 de novembro em São Paulo, cuja pauta prevista, incluindo a estratégia para a eleição municipal, deve ficar em segundo plano.

A discussão agora é como aproveitar a liberdade do ex-presidente, que poderá ser efêmera, na estratégia de combate ao governo Bolsonaro.

"Ele tem dito que quer se apresentar como alguém mais à esquerda, mas não no sentido de ser leninista ou trotskista. É na linha de defender a inclusão dos mais pobres no Orçamento e denunciar que querem vender o patrimônio do país", disse Gilberto Carvalho, ex-chefe de gabinete de Lula na Presidência e um dos seus aliados de maior confiança.

A linha de investir pesadamente na crítica à situação econômica ficou clara no primeiro discurso de Lula ao deixar a cadeia, ainda em Curitiba. Da mesma forma, ele reafirmou o que vinha dizendo a petistas que o visitavam na prisão, que tem a intenção de percorrer o país.

"Tem que associar as duas coisas: a liberdade de Lula e a agenda econômica. As pessoas só vão se mobilizar se assuntos que falem de suas dificuldades diárias estiverem presentes", diz o deputado federal Rui Falcão (PT-SP), ex-presidente nacional do partido.

A realização de uma caravana no Nordeste, região em que o PT tem mais força, deve ficar para 2020, por questões logísticas. Até o fim do ano, no entanto, Lula pretende fazer no mínimo uma incursão pontual por uma capital nordestina, provavelmente Salvador.

Também há uma preocupação com a segurança. O petista tem direito a segurança pelo fato de ser ex-presidente da República, mas o partido pretende reforçar a proteção.

"É evidente que vamos tomar muito cuidado. Há muita conversa entre nós sobre a necessidade de reforço da segurança pessoal dele, sobretudo nesse momento que algumas reações são muito doidas", disse Carvalho.

De acordo com ele, Lula evitará responder a provocações de Bolsonaro e de seu entorno. "Nesse jogo ele não vai cair. Não vai facilitar a vida do Bolsonaro e fornecer elementos para o presidente fortalecer a sua base." O tom de suas falas, segundo o dirigente petista, será sobre a necessidade de unir o país.

Como ficou claro no discurso de Curitiba, uma exceção é a crítica à Lava Jato, especialmente ao ministro da Justiça, Sergio Moro. "Ele não vai deixar de xingar o Moro, mas de maneira geral, não tem essa coisa de vingança, do ódio", declarou Carvalho.

A fala em Curitiba nesta sexta, de qualquer forma, foi um mero aperitivo à militância. O ex-presidente promete um discurso de mais impacto neste sábado (9) em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo (SP).

Segundo aliados, é com base no tom adotado nessa fala, no ambiente que o projetou para a política, no final dos anos 1970, que será possível entender a linha de oposição a ser feita ao governo Bolsonaro.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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