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Observatório econômico

OBSERVATÓRIO ECONÔMICO

Sobre bancos e juros

Publicado em: 28/10/2019 10:55 | Atualizado em: 28/10/2019 10:58

Não precisa ser economista para desconfiar de quem tem algo, no mínimo, curioso com os altos spreads nos empréstimos bancários. Spread é a diferença entre o custo de captação do banco (quanto é pago ao depositante) e quanto é cobrado do tomador de recursos (firmas, famílias e governo).  Quando os juros básicos da economia (Selic) batem os 5,5% a.a., fica ainda mais evidente que algo está errado. Em operações de empréstimo para empresas, o spread médio chegou a 12,8 pontos percentuais (p.p.) em agosto. Para pessoas físicas passou dos 45 p.p. 

Inadimplência  e baixa taxa de recuperação do crédito estão entre as razões. Estima-se que para cada US$ 1,00 emprestado e que tenha sido alvo de não pagamento, os bancos só recuperem US$ 0,13. Bem menor que a média mundial (US$ 0,34) de acordo com o Banco Mundial. Outros candidatos são os custos trabalhistas e a participação do crédito direcionado na economia.  Um estudo recente do Banco Central (BC) aponta para outro candidato, que apesar de óbvio, é difícil de ser mensurado adequadamente. O estudo “Concorrência bancária e custo do crédito” investiga os efeitos da concorrência entre os bancos sobre o custo e volume de crédito nos municípios brasileiros.

A premissa é que onde a concorrência é mais baixa, o volume de empréstimos é menor e o custo do crédito tende a ser mais alto em relação a municípios onde a concorrência é maior.
Note que concorrência não necessariamente é relacionada a quantidade de bancos, como alguns costumam apregoar. Mercados com poucos participantes podem ser mais concorrenciais do que mercados com mais participantes, desde que haja, pasmem, competição entre eles. O problema não é o número de bancos, mas a ausência de competição. 

O estudo utiliza episódios de Fusão e Aquisição (F&A), onde há redução do número de bancos, como experimento para avaliar os impactos da redução de concorrência bancária. Os resultados apontam para uma redução no volume de crédito de bancos privados, que cai entre 7% e 21%, a depender do período de tempo analisado, em comparação a municípios onde não houve redução de concorrência. O estudo mostra ainda que o custo do crédito (medido pelo spread) aumenta entre 2,6 e 7 pontos percentuais em comparação a municípios não expostos a episódios de F&A. 

O avanço das fintechs (empresas de crédito com custo operacionais baixos e operados através de aplicativos), onde a dimensão geográfica não é importante, ajudará a aumentar a concorrência no mercado de crédito, derrubando o custo e a aumentando o volume de crédito. O Cadastro Positivo e a reforma trabalhista podem ajudar também. O primeiro ao reduzir a assimetria de informação aumentará a competição, o segundo reduz os custos trabalhistas. Melhorar a recuperação do crédito inadimplente seria igualmente importante.
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Resistência nordestina em cartaz

Diego Rocha *
Celebrando a resistência da arte nordestina e a arte nordestina de resistir, o 21º Festival Recife do Teatro Nacional está em cartaz na cidade para confirmar a vocação de um povo à resiliência e à criatividade. Até o próximo dia 24, a programação montada com muita assertividade pela Prefeitura do Recife irá apresentar 12 espetáculos em vários teatros da cidade, entre eles seis montagens nacionais jamais vistas na capital do Nordeste.
Mas não está toda no ineditismo a urgência que esses espetáculos carregam. Mas também e principalmente na referência e reverência que muitos fazem à estética e às temáticas fincadas no árido solo fértil do Nordeste. Alguns textos, como o da montagem Ariano %u2013 O Cavaleiro Sertanejo, da companhia carioca Os Ciclomáticos sequer foram produzidos no Nordeste. Mas sabem, bebem e comungam do povo que somos. Foram buscar inspiração em autores ensolarados como Ariano Suassuna e os tantos tipos e símbolos que ele fundou e transportou do imaginário nordestino para o mundo.
Há na programação citações ainda mais explícitas à nossa produção teatral. Parido do punho do próprio Ariano, em carne e pena, o clássico Auto da Compadecida chega ao Festival com sotaque mineiro, numa belíssima montagem do Grupo Maria Cutia, com a direção cênica precisa e sensível de Gabriel Villela, que conseguiu unir a cultura do cangaço pernambucano ao barroco mineiro, sem sair da trilha aberta pelo Movimento Armorial de Ariano.
São montagens que nos representam e, ao mesmo tempo, nos apresentam a nós mesmos, além de nos hastear bandeira a congregar territórios artísticos, afetivos e cívicos, num país assombrado e repartido por um projeto de poder excludente. Em cima e embaixo dos palcos, durante e depois do 21º Festival Recife do Teatro Nacional, que a arte e a força nordestina persistam farol aceso a nos guiar.

* Presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife

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