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OBSERVATÓRIO ECONÔMICO

Empregabilidade e Ensino Superior

Publicado em: 22/07/2019 09:37

A recente apresentação do Future-se, no novo plano do MEC para as instituições federais de ensino superior (IFES), pegou os atuais reitores e o mercado de surpresa. Longe de tratar sobre privatizações, se apresentou uma estratégia de aproximação das IFES do setor privado com foco em eficiência, colaboração e distribuição dos ganhos, com olhar sobre a empregabilidade dos alunos. O futuro do Future-se ainda é incerto, e questões como a necessidade destes recursos serem tratados como fora do teto de gasto pesam acerca da adesão das IFES, se é que haverá alguma. No entanto, só fato de chamar oficialmente a atenção à empregabilidade já é um avanço.
 
No modelo atual das IFES, geralmente, pode-se dizer que a questão da empregabilidade é extremamente relevante no lado da demanda (os alunos) e quase irrelevante do lado da oferta (as IFES). Mas isto tem uma razão, e não é distanciamento da realidade ou coisa parecida. As IFES foram construídas a partir da noção de ensino universal, de universidade, oferecendo a possibilidade de formação multidisciplinar indo das ciências exatas as ciências humanas, mantendo o leque de formação o mais amplo possível. Esta interdisciplinaridade é essencial para a expansão do conhecimento, mesmo que os produtos em si acabem sendo associados a um número reduzido de áreas.

Em outras palavras, embora nós precisemos de filósofos, historiadores, geógrafos, educadores etc. para fomentar a discussão que está por trás da inovação, os engenheiros, advogados, administradores, médicos etc. é que acabam se envolvendo efetivamente com os produtos e serviços finais, e consequentemente é sobre eles que recai a demanda do mercado privado. Assim, a empregabilidade termina sendo muito maior para um conjunto de cursos que para outro. Se as universidades forem se pautar somente por empregabilidade, nem universidades teríamos  mais, a exemplo do que temos no setor privado de ensino superior onde muito mais da metade das vagas são para direito e administração.

Por outro lado, o fato de a diversidade ser mais importante que a empregabilidade no conceito de universidade não quer dizer que as IFES devam esquecer que os egressos de seus cursos necessitam se empregar após concluir seus estudos. A relação do ensino superior com o mercado privado, IFES ou não, deveria sem embrionária aqui como é no mundo todo. Mas no contexto das IFES isto ocorre muito pouco e, quando ocorre, costuma ser de forma isolada. De certa forma, a ideia que o setor privado é nocivo ao ensino superior acabou se misturando com o discurso sempre retomado da privatização das IFES, e criou uma barreira na relação entre estes agentes que deveriam se complementar. Embora esta barreira não seja homogênea entre todas as instituições, não é difícil perceber que ela existe.

O Future-se apresenta propostas bem interessantes para levar as IFES a uma integração mais efetiva com o mercado privado, onde isto for possível, porém mais que as questões formais para que ele se torne de fato atrativo, há barreiras não formais que pesarão muito na escolha dos reitores quanto à adesão. As IFES estão preparadas para uma convivência com desigualdade de rendimentos de seus docentes em função de atratibilidade de projetos e produtividade acadêmica? De desigualdades arquitetônicas em seus campi em função de investimentos privados? Se haverá o fim da isonomia em função do ingresso de recursos privados que serão direcionados, o que garantirá a manutenção das atividades que não têm atratividade? Estas são questões que terão de ser respondidas. 

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