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REPRESENTATIVIDADE

Curta-metragem pernambucano explora desumanização de pessoas trans

Publicado em: 01/06/2021 09:26 | Atualizado em: 01/06/2021 15:20

'Tornar-se Monstra ou Humana' é a primeira experiência de Catarina Almanova no audiovisual (Foto: Divulgação)
'Tornar-se Monstra ou Humana' é a primeira experiência de Catarina Almanova no audiovisual (Foto: Divulgação)

"A imagem de uma mulher trans quase nunca passa despercebida aos olhares aonde quer que esteja, e ao longo dos anos essa vigilância invasiva começou a se acumular em uma espécie de machucado em meu espírito". Foi movida por essa denúncia, vinda também de experiências próprias, que a pernambucana Catarina Almanova fez sua estreia como diretora e roteirista no mundo do audiovisual. Apesar de junho ser conhecido como o mês do Orgulho LGBT+, as demandas de representatividade e respeito estão longe de serem resolvidas.

O curta-metragem, intitulado Tornar-se Monstra ou Humana, é um projeto composto majoritariamente por mulheres trans e travestis e que utiliza da linguagem surrealista para falar dos processos sociais que desumanizam essas pessoas. Além de dirigir e roteirizar, Catarina protagoniza o vídeo e faz a narração de um monólogo sobre a luta pela representatividade de quem não é cis-gênero na arte.

Inicialmente pensada como uma videoarte, a ideia foi tomando a forma de curta-metragem com incentivo de recursos da Lei Aldir Blanc de Pernambuco. Para a diretora, é urgente o movimento de apoiar também grupos marginalizados que estão fazendo arte. "Os editais precisam entender a nossa beleza e o que estamos fazendo. Existe uma política que entende a arte de determinada forma, seja no teatro ou no cinema, exigindo moldes específicos de corpo e voz", denuncia.

Gravado pela Caldo de Cana Filmes em Aldeia, no município de Camaragibe, o curta explora cenários florestais a fim de construir um espaço fantasioso. Soma-se ainda os figurinos e as maquiagens exóticas assinados por Oura Aura do Nascimento, que criam figuras místicas integradas à natureza. Tudo isso contribuindo com a escolha de abordagem surrealista da performer que enxerga o conceito como uma estratégia de "pós-ficção".
 
Composto majoritariamente por uma equipe trans ou travesti, o curta é uma denúncia, mas também uma experiência sinestésica (Foto: Divulgação)
Composto majoritariamente por uma equipe trans ou travesti, o curta é uma denúncia, mas também uma experiência sinestésica (Foto: Divulgação)
 
Ainda iniciante no mundo do audiovisual, as influências de Almanova vem muito do seu repertório cênico como estudante de Licenciatura em Teatro na UFPE. Catarina traz referências do Butoh, dança contemporânea japonesa muito associada aos movimentos vanguardistas, e da dramaturga inglesa Sarah Kane, conhecida por suas imagens agressivas e chocantes.

Essa agressividade é refletida aqui através de símbolos de violência, como sangue e gritos, que soam inevitavelmente associadas ao país onde mais se matam transsexuais no mundo - o Brasil, com 175 assassinatos em 2020, um a cada dois dias, em média.

"Se a violência hoje me alcança é porque ela é chancelada pelas pessoas que nos negam direitos básicos como o acesso ao mercado de trabalho, um tratamento hormonal de qualidade, a existência do nome correto nos documentos, o uso do banheiro em locais públicos, entre outros", afirma a diretora.

Por outro lado, o curta também é uma forma de valorizar e promover a irmandade entre as pessoas transgêneros, representada pela aparição de Gabi Benedita, Julie Lima, Sophia William e Jarda Araújo, que também integram o elenco. O principal objetivo da idealizadora, além do interesse de levar o curta para festivais e ações culturais, é representar a pluralidade dos corpos trans e torná-los mistérios. Como esclarece em um trecho do monólogo: "Tornar-se um mistério é eu nunca mais precisar me explicar para ninguém".

Assista ao curta:

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