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Morre o performer, ilustrador e figurinista Patricio Bisso, aos 62

Por: Tony Goes

Publicado em: 14/10/2019 19:23

Amigos do artista informaram que ele sofreu um ataque cardíaco, em Buenos Aires, cidade em que residia - Foto: Reprodução/Facebook.
Amigos do artista informaram que ele sofreu um ataque cardíaco, em Buenos Aires, cidade em que residia - Foto: Reprodução/Facebook. ()
Conhecido por suas performances cômicas em palcos paulistanos e na TV, pelas paródias de musicais e também por seu trabalho como figurinista e ilustrador, o argentino Patricio Bisso morreu neste domingo (13) aos 62 anos.

Amigos do artista informaram que ele sofreu um ataque cardíaco, em Buenos Aires, cidade em que residia.

Bisso nasceu na capital argentina, mudou-se para a cidade de São Paulo aos 17 anos, no fim dos anos 1970, e deu sequência aqui a carreira de ilustrador que iniciara em Nova York, tendo publicado desenhos inclusive na Folha de S.Paulo.

Tornou-se ícone na noite LGBT paulistana nos anos 1980, apresentando-se muitas vezes travestidos. Uma de suas personagens mais conhecidas foi a russa Olga del Volga, sexóloga e conselheira sentimental.

Em seus espetáculos, ele recriava minuciosamente o visual de divas dos anos 1950 e 1960, como Connie Francis e Gigliola Cinquetti.

Bisso também esteve no palco junto a artistas do movimento de músicos Vanguarda Paulista e foi figurinista do filme "O Beijo da Mulher-Aranha", de Héctor Babenco.

Já há alguns anos, voltara a viver no mesmo edifício em que morava sua mãe em Buenos Aires, mas mantinha contato com os amigos brasileiros através de seu perfil no Facebook, onde sempre escrevia em português. Sua última postagem foi publicada no sábado (12).

Recém-chegado a São Paulo em 1979, Bisso de imediato chamou a atenção da crítica por sua atuação na peça "Ladies na Madrugada", de Mauro Rasi, onde encarnava suas conterrâneas Libertad Lamarque e Evita Perón. Em pouco tempo, se tornou um nome conhecido no meio teatral.

Mas também se meteu em atritos na classe artística, sempre por causa de sua língua ferina. Marília Pera nunca o perdoou por ele por ter chamado Bibi Ferreira e Tonia Carrero de "aeromoças da arca de Noé".

Na década de 1980, Bisso parecia estar em toda parte. Acompanhado pela banda Os Boko Mokos e pelo trio vocal As Notas Pretas, seu show "Louca Pelo Saxofone" -em que ele evocava (sem imitar propriamente) grandes divas da música, que iam de Wanderléa a Connie Francis - estreou em 1985 e permaneceu anos em cartaz.

O espetáculo gerou um disco que é uma pérola do pop brasileiro, com versões inacreditáveis de clássicos como "These Boots Are Made for Walking" e faixas originais como "Sou Moderna", de dar inveja a Laurie Anderson.

Outros shows se seguiram, como "Bisso Black and Blue", de 1988, em que ele usava uma hoje impensável "blackface" para interpretar cantoras negras como Ella Fitzgerald e Sarah Vaughn. A voz -que, em português, jamais se livrou do sotaque portenho - não chegava lá. Mas os trejeitos, o gestual, o clima de cada estrela, tudo era recriado de modo absolutamente perfeito. E engraçadíssimo.

Bisso também criou os esplêndidos figurinos de "O Beijo da Mulher Aranha" (1985), de Hector Babenco, e ainda fez uma pequena participação no filme. Outras atuações no cinema incluem "Além da Paixão" (1985), de Bruno Barreto, e "Dias Melhores Virão" (1989), de Cacá Diegues.

Na imprensa, Bisso atuava em duas frentes: como ilustrador, assinando desenhos de traço elegante e inconfundível, e como cronista. Teve coluna fixa na Folha de S.Paulo, onde narrava suas aventuras pelo mundo afora (e que quase lhe rendeu um processo, depois de descrever uma candidata de um concurso de miss do interior, do qual foi jurado, como "uma geladeira com pés").

Seu personagem mais conhecido era a sexóloga russa Olga del Volga, figura frequente na TV da década de 1980 - apareceu até na novela "Um Sonho a Mais" (1985), da Globo. Olga também era "habitué" do sofá de Hebe Camargo, o que é lembrado no longa "Hebe - A Estrela do Brasil", atualmente em cartaz.

Bisso sonhava em eternizar sua criatura em um longa-metragem, mas não teve tempo. Na noite de 3 de dezembro de 1994, um incidente descarrilou sua vida. O artista foi preso em flagrante por praticar sexo em público, ao ar livre, na Praça Roosevelt, em São Paulo. Pagou fiança e declarou ter sido agredido pela polícia. Desde então, afastou-se dos holofotes.

Patricio Bisso deixa a mãe, um irmão, duas irmãs e vários sobrinhos.
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