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Estilista negro que enfrentou indústria essencialmente branca é destaque na SPFW

Publicado em: 18/10/2019 21:49

Isaac Silva é um estilista negro que teve de bater de frente com uma indústria majoritariamente branca para ver sua roupa tomar corpo na rua e na cultura - Foto: Instagram/Reprodução.
A grande questão sobre a continuidade das semanas de moda no mundo é a defasagem de grifes com propósito de mostrar conteúdo relevante, como acontece em Londres e Nova York. Há pelo menos três anos se discute isso com a de São Paulo, que mostrou, no último dia da São Paulo Fashion Week, apresentações cujas imagens, se não resolvem a questão do mercado capenga, pelo menos dão pistas de novos caminhos para seguir viva.

O ponto alto desta sexta-feira (18) no Pavilhão das Culturas Brasileiras foi a estreia de Isaac Silva no calendário de desfiles. Estilista negro que teve de bater de frente com uma indústria essencialmente branca para ver sua roupa tomar corpo na rua e na cultura, ele levou sal grosso e ramos de arruda para a passarela na qual cruzaram mais de 40 roupas brancas –no sincretismo religioso, sexta é dia de Oxalá e se deve usar a cor como homenagem ao orixá.

Uma seleção de modelos negros, homens e mulheres, de diferentes corpos, estaturas e tons de pele levou ao delírio uma plateia responsiva a cada look que passava contando a história da moda dos escravos alforriados no país.

Ele foi buscar em Fortaleza, no Ceará, sua renda richelieu, uma espécie de rede de tramas abertas tecida com bases de lacê. Era um dos poucos tecidos que as negras podiam trabalhar em cima e cortar roupas, porque não eram autorizadas a vestir elementos da roupa de sinhá.

Aqueles detalhes vazados que cobrem os vestidos tradicionais das baianas, por exemplo, foi uma invenção dessas mulheres para poder respirar no calor brasileiro. Esses entremeios, assim como as bases de algodão, foram pontos de partida para o desfile de peças que revisita todos os sucessos de Silva ao longo de sua curta carreira solo.

Ainda que sejam necessárias outras temporadas até que ele consiga provar que, para além do discurso, suas roupas podem aliar imagem e execução complexa, Silva ofereceu um viés de afrofuturismo que, assim como fez Ângela Brito, faltava à programação historicamente eurocêntrica como a da SPFW.

Este dia também mostrou alternativas ao vaivém de modelos que muita gente acredita ser um formato saturado de apresentações. A ótima coleção da Another Place, de Rafael Nascimento, não trouxe apenas peças utilitárias cortadas com esmero e estampadas com desenhos inspirados em astrologia, mas um pacote de apresentação que misturou cinema, teatro e música, algo que há muito tempo não se via no evento.

A marca abriu o "desfile" no Teatro Itália, na região central, exibindo um curta-metragem protagonizado pelo ator Johnny Massaro, que vive um cantor em crise existencial e compra um boneco inflável com sua cara para se relacionar.

A trilha é da cantora carioca Barbara Ohana, que criou seis faixas para o curta, intitulado "Looking For A New Place To Begin" (Procurando um novo lugar para recomeçar), e deve lançar em plataformas digitais, na próxima quinta-feira (24), um álbum com essas músicas que, no filme, foram dubladas por Massaro.

Quando os créditos subiram e a cortina abriu, o próprio ator apareceu dublando Ohana enquanto, um a um, os modelos iam ao meio do tablado colocar as roupas sob a luz. "É uma apresentação pensada para que chegue a mais pessoas, que não acabe no desfile", disse Nascimento nos bastidores.

O uso de outras vertentes artísticas não é nova na moda, mas quando ela virou mais números do que sonhos, quando o mercado começou a engolir os matizes de expressão que um desfile pode oferecer, quase tudo passou a se resumir a roupas. Não que a Another Place não pense em vendas, pelo contrário, suas roupas são fáceis de assimilar, mas ao unir suas ideias às de outros, ela ganha uma força preciosa para a audiência.

O estilista Luiz Claudio nem precisava dela, mas o desfile de sua Apartamento 03 também foi um manifesto por mais profundidade nas apresentações, um olhar que estenda o discurso da roupa e mostre nuances do que o estilista se propõe a mostrar.

No caso dele, o coreógrafo e dançarino João Butoh apresentou uma performance inspirada nas de Kazuo Ohno, expoente da estética butô que, após a Segunda Guerra, dançava com mãos, pernas e olhos os humores obscuros dos efeitos posteriores à bomba de Hiroshima.

A dança trata de desalento, mas o designer retruca com signos de renascimento impressos na roupa, como os bordados de lagartas que se transformam em borboletas, em flores negras que, de repente, retomam a cor vermelha num truque de tridimensionalidade.

Explica-se. A base de tela que recobre alguns looks tem uma estampa de rosa, e, embaixo, há outra que, com as passadas do corpo simulam o movimento 3D de mãos girando com essa flor. É uma ilusão óptica que remete ao butô visto ao vivo naquela passarela e só funciona se quem a usar seguir em frente, uma mensagem poética e de esperança em meio ao caos tecido na roupa.

O efeito também é usado em plissados, cujas formas se abrem revelando cores ao sabor dos passos das modelos, trajadas com peças de noite e alfaiataria carregada de elementos.

Em vez das bases rígidas de lã ou algodão, Luiz Claudio corta peças com tecidos leves, maleáveis, para que dancem juntos e revelem suas ideias por debaixo das aparências.
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