Literatura 'Solano Trindade é ícone na luta pela civilidade', diz sociólogo Muniz Sodré, que estará na Bienal

Por: André Santa Rosa - Diario de Pernambuco

Publicado em: 30/09/2019 11:54 Atualizado em: 30/09/2019 12:00

Filho do sapateiro Manuel Abílio Trindade, o artista teve uma formação autodidata, se tornando um visionário, expoente das artes e cultura afro-brasileira. Foto: Arquivo
Filho do sapateiro Manuel Abílio Trindade, o artista teve uma formação autodidata, se tornando um visionário, expoente das artes e cultura afro-brasileira. Foto: Arquivo
 
Solano significa “vento do levante”, em latim. Talvez nenhuma descrição se aproxime mais da potência de Solano Trindade (1908-1974) que seu próprio nome de batismo. O recifense, que entre outras coisas, era poeta, pintor, folclorista, ator, teatrólogo, cineasta e militante do movimento negro, é um dos homenageados da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, ao lado de escritor cearense Sidney Rocha. Filho do sapateiro Manuel Abílio Trindade, o artista teve uma formação autodidata, se tornando um visionário, expoente das artes e cultura afro-brasileira.

No dia 8 de outubro, uma sexta-feira, às 17h, a obra do poeta estará em pauta na Bienal de Pernambuco em uma palestra com Muniz Sodré, um dos maiores sociólogos e pesquisadores da cultura negra no Brasil. “Solano é um ícone na luta pela civilidade, então levantar a memória de uma figura tão digna é muito propício neste momento atual de déficit de educação”, explica Sodré. Em entrevista ao Viver, o pesquisador Muniz Sodré fala sobre o artista recifense, fala sobre a Bienal de Pernambuco e censura.

Entrevista - Muniz Sodré, professor, jornalista e pesquisador

A obra do poeta estará em pauta na Bienal de Pernambuco em uma palestra com Muniz Sodré. Foto: Reprodução/Youtube
A obra do poeta estará em pauta na Bienal de Pernambuco em uma palestra com Muniz Sodré. Foto: Reprodução/Youtube
Talvez um dos maiores méritos dessa onda dos estudos culturais, principalmente nos programas de pós graduação em letras e comunicação, seja o resgate de escritores, artistas e realizadores que não configuraram os cânones, muito por apagamentos através de questões raciais, de sexualidade e de gênero. Como você enxerga essa proposta?
Esse movimento de resgate vem muito mais por parte de certos setores da crítica, que estão antenados na paisagem de mudança brasileira. Ao longo dos últimos dez anos, formou-se no Brasil uma espécie de intelectualidade negra, composta basicamente de universitários de ciências humanas, comunicação e artes. Esse público é um fenômeno novo, tem muito a ver com as políticas de ação afirmativa, a entrada de negros de forma numerosa nas universidades, mas também o ápice de muitos anos dos movimentos que abandonaram aquela política muito ressentida para uma ação mais proativa. É nesse quadro de consideração em outro nível da questão racial, a compreensão que isso é uma questão no Brasil, que surgiu essa intelectualidade negra. Existem mudanças e isso não tem retrocesso. Não adianta perseguição de governo ou fundamentalismo ideológico, porque não tem volta. A questão racial, o século passado não resolveu, nem esse vai resolver. Mas, em um nível de consciência, as coisas mudaram. E a Bienal é muito útil para abrir esse espaço, com frentes de divulgação, publicação e visibilidade. A Bienal tem muito esse papel de mobilização social. 

Onde Solano Trindade se localiza nesse horizonte de um resgate de figuras por parte dessa intelectualidade negra?
Solano é muito pouco conhecido. Aqui no sudeste, é ainda menos que aí em Recife, porque ele não está no cânone literário. E você sabe que a poesia também tem um público específico. A maioria dos poetas conhecidos, são muito os estudados em da escola, porque o garoto de 19 ou 20 anos é difícil de ler poesia. Portanto, é preciso estar no cânone. Por outro lado, ele não é um poeta que aponta para um refinamento estilístico.  É um poeta de apelo, de coração. Comparo ele a Maiakovski, o poeta da Revolução Russa. Ele é um artista para “inflamar”, mas com qualidade, porque a poesia dele não se resume a mera propaganda racial. 

Qual a importância da Bienal em evocar Solano, especificamente no período em que estamos vivendo?
Eu acho que a vocação desse nome é o mesmo tempo literário e política. Solano é pernambucano e de Recife, foi militante político. Seu filho, Francisco, foi morto pela ditadura militar. Então a Bienal, nesse momento, escolher homenagear essa figura, é um gesto muito acertado do curador, porque é justamente um ícone literário. Prova que a literatura tem muita influência na esfera pública, entre outros motivos, porque ele foi um griô. Griô é uma figura da África Ocidental, que tinha a capacidade de transmitir conhecimentos de forma oral, como poeta, que canta dança e interpreta.  Uma espécie de multiartista. Solano era um griô, alguém que reúne várias expressões artísticas, para falar sobre a libertação do povo negro.

A Bienal do Rio passou por episódio de censura. Como você enxerga esse tipo de ação, de cerceamento de liberdades?
O prefeito do Rio (Marcelo Crivella) é desastroso, tanto do ponto de vista administrativo, quanto nos pensamentos. Ele mistura a igreja com administração e quer se reeleger. Esse episódio de censura a um quadrinho que tinha dois homens se beijando foi um aceno para o grupo protofascista que surgiu nas últimas eleições. Essa revista não teria muita importância se não fosse a tentativa de proibi-la. Eu sinto que o episódio serviu mais para mostrar a dignidade do público leitor e da Bienal. A Bienal mostrou uma cena de resistência, moral, política e também literária. As instituições de ensino e cultura precisam mostrar que evoluíram, porque o que estão fazendo não é um ódio pessoal a alguém, é o ódio às instituições. A resistência se faz fundamental agora. 



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.