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Os Pássaros: entre a literatura e o cinema

Livro é recheado de questionamentos sobre as ações humanas e diferentemente do filme de Hitchcock não dá tanta ênfase ao terror

Livro é lançado em capa dura com apresentação de Ken Mogg, estudioso da obra de Hitchcock. Foto: Darkside Books/Divulgação

O mundo como o conhecemos acabou e o motivo desse cenário pós-apocalíptico foi o ataque em massa de milhares de pássaros. A obra de Frank Baker, escrita em 1935 e lançada um ano depois, continua atual mesmo depois de mais de meio século. O enredo que mistura suspense com toques de reflexão sociopolítica está envolto numa polêmica de plágio e tornou-se mais conhecido depois da produção para o cinema, feita por Alfred Hitchcock, no começo da década de 1960. Agora, Os pássaros foi lançado no Brasil pela Darkside Books, numa edição em capa dura, que dá a oportunidade de quem é fã do gênero conhecer melhor a história.

Ao assistir ao filme de Hitchcock é possível reparar que a cena de abertura faz referência ao livro de Daphne Du Maurier, publicado em 1952. O diretor diz que o longa foi baseado na obra da autora inglesa, contudo 16 anos antes, um outro texto, intitulado Os pássaros havia sido publicado pelo também inglês Frank Baker. Os dois livros falam de um ataque feroz de aves sobre a população, desenvolvendo-se de modo similar. A partir daí foi que surgiu a polêmica de Dahpne ter plagiado a obra de Baker (inclusive a autora já se envolveu em um problema similar com a publicação de Rebecca) Com o lançamento da Darkside é possível conhecer a narrativa original de Os pássaros e ter acesso a um autor ainda pouco explorado pelo público brasileiro.

Por quase 300 páginas, o leitor é levado a reviver, junto com um senhor de 80 anos, a história que deu fim à sociedade industrializada e urbana. O livro, dividido em três partes (Antecedentes, A montanha e A queda), mais do que uma história de suspense ou terror, traz uma reflexão sobre a sociedade londrina (que pode ser expandida para sociedade em geral) da época. No primeiro momento, para descrever um mundo que deixou de existir, o personagem detalha cada aspecto de como era a vida cotidiana numa grande metrópole. Esse artifício serve de base para tecer diversas críticas ao comportamento frenético e ao mesmo tempo vazio que permeia a sociedade. É interessante o modo isso é apresentado, pois os relatos cheios de ironia e crítica mostram que questões cotidianas tidas como essenciais são na verdade supérfluas.

"...um apego singular a bens de todos os tipos. Essa febre […] deu origem a uma rivalidade entre aqueles que possuíam muito e aqueles que possuíam pouco." P.41

A história não é recheada de tensão constante sobre o ataque dos pássaros, como acontece com o filme, e os acontecimentos vão sendo apresentados aos poucos. Isso pode incomodar um leitor mais ansioso, já o texto perde ritmo depois de um tempo, chegando, em alguns momentos, a ser tornar enfadonho. Contudo, do ponto de vista reflexivo é possível notar que o relato de 1936 continua atual no retrato que constrói sobre o comportamento da sociedade de qualquer época.

Em entrevista ao Viver, o tradutor do livro no Brasil, Bruno Dorigatti, explica que a versão lançada no país é a de 1964, quando Baker de certa maneira atualizou o texto que havia escrito anos antes. A escolha por publicar esse clássico se deu pela relevância do tema, que trata de questões humanas que são atemporais. "A forma como o livro é construído mistura crueza e ironia, que criticam o tempo inteiro algumas das nossas escolhas e o rumo que o mundo tomou. Infelizmente, não aprendemos tudo o que deveríamos com o passado e nuvens negras voltam a cobrir o planeta", conta.

A história construída na literatura e no cinema

Confira o trailer de Os pássaros, dirigido por Alfred Hitchcock:

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As duas obras, apesar de tratarem sobre o mesmo tema, abordam a história de formas distintas, o que as torna produções independentes até em termos de comparação. Mesmo assim, é possível delinear alguns aspectos sobre Os pássaros construído na literatura de Baker e no cinema de Hitchcock. Em ambos, as aves são apresentadas como criaturas que, de repente, perderam sua característica de passividade em convívio com o homem e agora atacam as pessoas em bandos de milhares de animais. O ponto é que isso é apresentado com ênfases diferentes, indo mais para o terror ou para uma reflexão sociopolítica.

Alfred Hitchcook constrói o filme tendo como mote um jovem casal, Melanie (Tippi Hedren) e Mitch (Rod Taylor), que numa cidade no interior da Califórnia se veem em meio a um ataque de corvos e gaivotas. A sensação de claustrofobia e o clima de tensão são priorizados no longa. As cenas de constantes ataques, o local isolado e os poucos personagens envolvidos contribuem para uma produção de terror. Como espectador, é interessante observar os recursos técnicos e os movimentos de câmera usados à época para conseguir construir esse cenário com pássaros descontrolados.

No caso do livro de Frank Baker, a narrativa é muito mais centrada na ideia social. O autor tece críticas e questionamentos ao consumismo, imparcialidade (ou falta dela) jornalística, educação machista das mulheres, liberdade sexual, arte e outra infinidade de assuntos que pode deixar muitas pessoas surpresas pelo fato do texto ser de 1936. O ataque dos pássaros surge como fio condutor para todas as reflexões do livro. A revoada com as aves "assassinas" se expande para o mundo, mesmo que o centro seja a metrópole de Londres, chamada de City, e consegue destruir a sociedade do modo como conhecemos, o que mostra a visão um tanto pessimista de Baker.

Enquanto obra literária, a produção não chega a ser arrebatadora, algumas passagens são longas, cansativas, mesmo assim traz um conteúdo que nos faz parar para pensar como o mundo funciona de maneira cíclica. Os comportamentos sociais se repetem ao longo do tempo, sejam eles bons ou nem tanto.

"É a Londres de 1935que se observa nestas páginas – o mundo anterior à chegada dos pássaros; um mundo que não tinha televisão, aviões a jato ou bombas atômicas. Ainda assim, é um mundo que difere pouco do atual, exceto que agora há mais pessoas e a correria cotidiana é mais veloz." Nota de Frank Baker para a edição de Os pássaros de  1964. 

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