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SONHO

Através da venda de ovos, Douglas sonha em ser piloto de avião

Publicado em: 04/09/2020 14:03 | Atualizado em: 05/09/2020 11:23

 (Peu Ricardo/DP Foto )
Peu Ricardo/DP Foto
"Olha o carro do ovo, trinta ovos por dez reais", certamente você já ouviu essa frase ecoando na sua rua ou na de algum parente. Uma dessas vozes é do jovem Douglas Barreto, de 22 anos. Douglas trabalha há três anos vendendo ovos para pagar os estudos de aviação. A paixão pela profissão surgiu aos sete anos, quando Douglas deixava a irmã no aeroporto. Ela fazia parte de um grupo de dança cultural e viajava para competir.

"Todas as vezes que eu levava a minha irmã no aeroporto, eu me deparava com a tripulação no desembarque, foi quando eu criei uma admiração. Depois de um tempo eu voltei ao aeroporto e procurei saber com eles sobre os cursos de aviação. Depois [os tripulantes] me indicaram aulas em vários lugares, mas o custo seria muito alto porque o primeiro passo é como comissário, é a primeira etapa das três", contou.

Douglas concluiu o curso de comissário antes da pandemia, mas com a paralisação das atividades, o sonho de ser piloto foi adiado. 

"No momento que eu ia começar o curso de piloto veio a pandemia, não consegui iniciar. Mas eu fico em casa assistindo os vídeos, lendo o material, porque quando as aulas voltarem eu já estarei um pouco à frente. Eu paguei a primeira parcela do curso com o dinheiro que eu peguei emprestado, e consegui dinheiro para a segunda. Daí eu guardei o lucro que eu conseguia vendendo ovos. O dono do curso cedeu uma bolsa para mim e os outros alunos pagavam o meu almoço, faziam feira para mim", desabafa.

Aos 15 anos, o estudante ajudava o pai em uma barraca vendendo pipoca. Com a diminuição das vendas, precisou trabalhar em outro lugar para ajudar a família. Douglas conta com uma rede de apoio da família e amigos para seguir a carreira que almeja. A vizinha, dona Maria, cuida do fardamento do rapaz e os amigos ofereceram o emprego de vendedor de ovos. A mãe é empregada doméstica e sonha em ter a casa própria. O sonho da mãe de Douglas se tornou a sua meta.

"Eles me chamaram para trabalhar vendendo ovos e isso me ajudou muito porque eu precisava desse dinheiro. Não é fácil. Eu começo meu trabalho às 7h abastecendo o carro. Logo em seguida eu vou passando nas ruas e só termino o meu dia quando vendo todos os ovos. Em alguns dias eu vendo 150 bandejas, mas a média é de 130. Durante o intervalo do almoço eu estudo, em torno de 30 minutos. Quando eu chego em casa, mais ou menos umas 20h, eu tomo banho, janto e sento para estudar novamente. Meu dia termina às 22h", explica.

O caminho para Douglas não é fácil, mas o jovem persiste e tem esperança de que um dia conseguirá conquistar a licença para pilotar. Na Favela do Canal, no bairro do Arruda, onde o rapaz vive, o estudante foi desmotivado por alguns moradores.

"Eu vim de uma comunidade em que muitos jovens não acreditam nos seus sonhos, acham que nada é possível. Muitos criticam também, falam que o meu objetivo não é coisa para filho de pobre, é trabalho de rico, que eu não vou chegar lá. Eu fico muito emocionado quando eu passo na rua fardado e a vizinhança olha para mim com orgulho. Eu vejo que eu estou servindo de exemplo para os moleques que se espelham em mim", revelou.
 (Peu Ricardo/DP Foto )
Peu Ricardo/DP Foto

Douglas é reconhecido aos poucos pelos profissionais da aviação. No dia 12 de setembro, o estudante viajará ao Rio Grande do Norte, onde receberá um café da manhã em sua homenagem. O evento é realizado pela escola de aviação do estado. 

"Eu queria agradecer toda a força que as pessoas vem me dando, aos professores, aos alunos da minha turma que me apoiam, mas acima de tudo aos clientes que compram bandejas de ovos a nós. Todas as vezes que alguém compra a um vendedor do carro do ovo ele está ajudando um jovem sonhador como eu e um pai de família a levar comida para dentro de casa". 

 



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