Amor Casais homoafetivos celebram união em cerimônia coletiva no Recife

Publicado em: 19/07/2019 19:29 Atualizado em: 19/07/2019 19:37

Foto: Bruna Costa / Esp. DP FOTO
Foto: Bruna Costa / Esp. DP FOTO

Todos os dias, enquanto monitorava o funcionamento de softwares na madrugada, a analista de sistemas Carolina Oliveira, 31 anos, fotografava a mesma cena. A imagem de um barco passando em frente ao Bairro do Recife, que ela via da janela do trabalho, ia parar nas redes sociais. Uma vez, os afazeres a impediram de registrar o momento. Do outro lado da tela, a fisioterapeuta Giovanna Sá, 29, percebeu a ausência. Ao descobrir o motivo, ela fez um barco de papel e foi entregar a Carolina. As duas saíram para tomar um café. Depois, voltaram a se encontrar à noite. Dali em diante, começava a história oficializada nesta sexta-feira (19).

Carolina e Giovanna formam um dos 16 casais protagonistas de um casamento homoafetivo coletivo realizado no Centro Cultural Rossini Alves Couto, no Bairro da Boa Vista. A ideia de casar foi de Giovanna, poucos meses após o início do relacionamento. Ela precisou se ajoelhar três vezes dentro de casa e comprar uma aliança para Carolina levar a sério. “A gente começou a morar junto um mês e meio depois do início do namoro. Realmente, nos damos bem. Quando aconteceu o episódio do barquinho, pensei que havia encontrado alguém igual a mim, foi quando me encontrei”, explicou Carolina.

Segundo elas, a decisão de casar junto a outros casais homoafetivos, entretanto, não em um poder apenas pessoal, mas também político. “O fato de a gente casar no coletivo é aquela coisa, ninguém solta a mão de ninguém. A gente até teve a oportunidade de casar antes, mas preferimos esperar”, disse Giovanna. “Além de ser um dia de festa, é um dia de representatividade e de luta mesmo. Até dentro de casa, já passamos por situações difíceis. Nem todo mundo tem o mesmo tempo e precisamos respeitar. Um exemplo é minha mãe. E hoje ela está aqui”, complementou Carolina, que segurava nas mãos uma bandeira símbolo do movimento LGBTQI+.

Juntos há sete anos, o analista financeiro Cláudio Cavalcanti, 29, e o analista de logística Otávio Henrique, 27, decidiram casar de forma coletiva no ano passado, depois de participar da cerimônia de amigos. “Além de ser um ato de amor, é um ato político e social. É mostrar que o amor sempre vence”, disse Otávio. Outra motivação para participar da cerimônia são os  incentivos conquistados pelos organizadores para os casais homoafetivos, como a gratuidade nas certidões emitidas nos cartórios, na cerimônia e também na festa, toda organizada pela força do voluntariado. “É importante celebrar a nossa união. É uma emoção sem descrição, não há como dizer. A gente só saber que tem amor”, disse Cláudio.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo foi declarada legal pelo Supremo Tribunal Federal em maio de 2011. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou uma resolução que permitiu aos cartórios registrarem casamentos homoafetivos. Porém, na prática, o caminho percorrido pelos casais ainda é longo. O casamento coletivo vem na perspectiva de fortalecer e dar visibilidade à causa. “Descobrimos que existia resistência nos cartórios na realização de todos os trâmites, em reconhecer a condição sexual, a identidade de gênero dos nossos filhos”, explicou a presidente do grupo Mães pela Diversidade, Gi Carvalho.
Foto: Bruna Costa / Esp. DP FOTO
Foto: Bruna Costa / Esp. DP FOTO

As dificuldades enfrentadas nos cartórios protelaram, inclusive, a realização do casamento coletivo. No início, eram 56 casais inscritos. “Levamos cerca de sete meses para conseguir realizar a celebração. A gente entende esse movimento de coletividade como um momento de celebração da existência. Estamos vivendo um processo governamental no país onde as coisas ruins estão mostrando força. Então, estar todo mundo junto demonstra força. É um segurando a mão do outro”, detalhou Gi, responsável por provocar o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) a abrir as portas do centro cultural para o evento.

“Esse é um momento de apogeu de autoafirmação da pessoa, em que se garante e se respeita a orientação sexual e se celebra o amor. Não há cidadania se não houver plenitude. Essa é a parte lúdica de uma história de luta”, afirmou a coordenadora do Centro Operacional de Apoio às Promotorias de Justiça de Defesa da Cidadania (Caop Cidadania), Dalva Cabral. O juiz de paz Clicério Bezerra foi o responsável por formalizar a união dos participantes. Ele é um dos primeiros magistrados a realizar cerimônias homoafetivas no país e o primeiro do Norte e Nordeste. 



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