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Opinião
Um cofre recifense que fervilhava de novidades

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 04/08/2022 03:00 Atualizado em: 04/08/2022 06:17

Fora da sua Página Social do Diario,  o jornalista João Alberto, colega de jornal durante quase três décadas, nos tem deliciado com as suas crônicas de temática recifense, uma delas, recentemente, sobre a nossa capital e suas elegantes lojas comerciais que deixaram de existir ao longo dos anos. Não é da famosa Joalharia Krause, a M. L. Krause &, da Rua Primeiro de Março, esquina da Rua do Imperador –fundada em 1941, e do seu prédio imponente de secular tradição, um marco da arquitetura pernambucana, (que deveria ser tombado), que desejo comentar neste artigo.

É do seu cofre, cheio de joias preciosas de ouro e prata, que fervilhava de novidades vindas das filiais do Rio de Janeiro, Pará e Maranhão, dos países de maior fama e tradição no ramo de joias, principalmente da França e da Alemanha. Sem falar das surpresas que serão nominadas a seguir. Era a preferida pela “fina flor” das famílias abastadas recifenses. Por tradição, saindo da Krause, o que era ouro, de verdade o seria para sempre. Daí a fama da marca fundada por um caixeiro viajante.

Era visitada por usineiros, políticos, senhores e senhoras de engenho, damas nascidas em berço de ouro, vultos da magistratura e dos saberes jurídicos. Um dos clientes famosos era o político paraibano Joao Pessoa. Poucas horas antes de ser assassinado, no Recife, havia marcado encontro na Krause com o amigo, usineiro Caio de Lima Cavalcanti. O visitante comprara uma joia de requintada grife para a filha que morava no Rio de Janeiro. Roberto Burle Marx era um deles. O filho da pernambucana Cecília Burle, na sua fase de design de joias finas, quando mostrava, no Recife, ainda jovem e desenhava com exclusividade para H. Stern. O mesmo H. Stern que, vindo da Alemanha, fugindo da Guerra, iniciara os seus negócios com joias feitas pelo também paisagista, que se tornaria o mais importante do século em que viveu. Foi uma dessas joias, saída do cofre da Krause, presenteada à Rainha Elizabeth II quando de sua passagem por Brasília. O segredo do cofre, só ao velho Luiz Alves Ferreira, gerente da loja, pai do maestro e compositor Nelson Ferreira, era permitido. Eu sabia, vendo o cofre-museu de perto, que  tinha a capacidade  de guardar  dentro dele vários outros cofrinhos familiares, protegidos em caixas de cedro, onde se viam antigas cartas de amor desfeito; secretas cartas de um jovem padre a uma freira de convento, nada parecidas com as cartas do padre e gênio Pierre Teilhard de Chardin a Leontine Zanta; achei lindo o retrato da avó cochilando na cadeira de pano; um pequeno e delicado estojo francês de retoque de maquiagem, para uso quando as palavras nada mais soassem, quando o relógio de parede não mais desse as horas na vastidão do tempo, quando os sonhos fossem quimeras a favor dos ventos,  quando o espelho sem fôlego  perdesse para sempre o seu reflexo. Vi nesse cofre lindas fotos do sol aceso no auge do verão, nos canaviais do engenho vitoriense de dona Flora de Oliveira Lima, esposa do diplomata e historiador Manuel de Oliveira Lima; contas de fim de safra, feitas pela dona do engenho; um par de esporas prateadas; um exemplar da Odisseia, de Homero, “pai fundador” da literatura e do cânone ocidental, onde em sucessivas passagens o ouro figura com predominância, ao lado de armas de ferro, diversos tipos de elmos provenientes do bronze, caracterizado pela presença de um suporte metálico Não exagero em dizer que vi caixas de perfumes, espelhos, leques e pentes para a festa em louvor à deusa Iemanjá; fiquei sabendo que, para aprender a amar o mistério, alguém deixara no cofre da Casa Krause um cadeado de prata, fechado... sem a chave; vi a partitura de um Te Deum, inédito, do Pe. Jaime C. Dinis, compositor sacro que ampliou consideravelmente o barroco em PE. Cofres antigos, há sempre segredos neles, dependendo das mãos macias que guardam as suas chaves.

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