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Opinião
Hora de governos regenerativos

Sérgio Xavier
Articulador da iniciativa Governadores Pelo Clima e dos Labs de Economia Regenerativa, no Centro Brasil no Clima %u2013 CBC

Publicado em: 06/08/2022 03:00 Atualizado em: 06/08/2022 10:24

Resolver problemas complexos, entrelaçados e urgentes, como pandemias, exclusões sociais, mudanças climáticas, corrosões políticas e crises econômicas exige muito mais do que velhas promessas. Requer novas ideias, base científica, articulação de forças democráticas e, sobretudo, metodologias para construir políticas públicas interconectadas, visando restaurações ambientais, sociais e econômicas, rápidas e simultâneas.

O insustentável modelo de desenvolvimento e de governança pública do século 20 precisa ser substituído imediatamente pelas novas referências do século 21, que exigem regenerar resiliências perdidas, fortalecer a democracia, criar programas multiconectados de governo e redesenhar processos socioeconômicos e ambientais, de forma integrada, recuperando o que foi destruído em todos os sentidos.

Na prática, quais referências são fundamentais na elaboração de planos de governo sintonizados com essa urgente demanda? Seguem 7 pontos para inspirar o debate:  

(1) Visão e gestão sistêmicas - Problemas interdependentes exigem soluções interligadas, com paradigmas de futuro, sem os velhos vícios que os causaram. Governos transformadores devem criar programas de capacitação de gestores e técnicos para aguçar novas percepções, ligar conhecimentos multidisciplinares e desenvolver modelos de gestão em rede. Sem conhecimento não haverá mudança de atitude.

(2) Mapa de desafios, limites e soluções – Para superar questões complexas (como colapsos ambientais e desigualdades) é essencial ter eixos norteadores e visão conjunta (digitalizada e transparente) dos diversos desafios e suas respectivas superações. Mapas de vulnerabilidades sociais, ambientais e econômicas, com zoneamentos de urgências, vocações e limites naturais (como água, energia e uso do solo) são pontos de partida. Governar na era digital é clicar em mapas e saber os passivos e as potencialidades de cada lugar, para tomar decisões embasadas, claras, ágeis e seguras.

(3) Economia Regenerativa como plataforma propulsora – Os tipos de cadeias produtivas, no campo e nas cidades, definem se haverá inclusão ou exclusão; sustentabilidade ou degradação; respeito ou opressão; saúde ou doenças. Hoje, na maioria, os processos econômicos são insustentáveis, com energias fósseis, emissões poluentes, lixos, desmatamentos, ineficiências, exclusões e matanças.

Portanto, é urgente inverter essa lógica e promover cadeias econômicas harmonizadas com os ciclos biogeoquímicos naturais para regenerar ecossistemas em vez de destruí-los e agregar comunidades em vez de ignorá-las.

Entre os eixos que podem acelerar o florescimento de uma nova Economia Regenerativa, destacam-se: (i) Energia Renovável, com redes descentralizadas, envolvendo comunidades locais, restaurando o ciclo de carbono para reverter o aquecimento global; (ii) Conservação de Água, com sistemas de captação de chuvas, reúso, saneamento, reflorestamentos e regeneração de bacias hidrográficas; (iii) Agroecologia e Bioeconomia, com bioindústrias que fortalecem as florestas vivas e as comunidades tradicionais, e se integram com alimentação e saúde; (iv) Circularidade, com indústrias reversas (resíduos virando insumos) e reciclagem - lixo zero; (v) Mobilidade Limpa, com biocombustíveis, hidrogênio verde e veículos elétricos públicos e compartilhados; (vi) Biodesign e Ecourbanismo, com moradias acessíveis e seguras (mais de 8,3 milhões estão em áreas de alto risco climático no Brasil), retrofit verde e redesenho para elevar a  qualidade de vida nas cidades; (vii) Educação, Arte e Comunicação para a Economia Regenerativa, com programas de qualificação profissional e incentivos culturais; (viii) Pagamentos Por Serviços Ambientais, com modelos cooperativos de créditos de carbono, agregando valor social e de proteção à biodiversidade; (ix) Gestão Sistêmica Digital, com softwares, IA e suportes para governança de bens comuns e processos regenerativos em rede. Impulsionar simultaneamente esses eixos é fomentar um desenvolvimento regenerativo.

(4) Políticas Públicas Sociais-Econômicas-Ambientais interconectadas – Os processos de formulação de leis, programas públicos e incentivos econômicos devem ter redução de desigualdades, regeneração ambiental e negócios verdes como bases inseparáveis. Os parlamentos precisam se adaptar a essas novas referências. Os planos de educação e capacitação profissional devem estar alinhados com as demandas das cadeias produtivas regenerativas, promovendo a migração de trabalhos fósseis para empregos sustentáveis.

(5) Instrumentos de Governança Sistêmica – Planejamento, gestão e monitoramentos governamentais devem saltar do offline ineficiente, lento e sem transparência para as redes digitais, com indicadores em tempo real, inteligência artificial, IoT e as melhores tecnologias disponíveis, a serviço do interesse público. Governos analógicos não dão conta da realidade veloz e interativa do século 21.

(6) Labs vivos de aceleração – Novos modelos de desenvolvimento devem ser construídos por biomas e bacias hidrográficas, integrando governos (políticas públicas), academia (conhecimentos científicos), entidades empresariais (empreendedorismo e investimento) e cidadania (representações comunitárias e ONGs), criando bases colaborativas de inovação e propulsão. Os pioneiros Labs de Economia Circular de Fernando de Noronha e de Economia Regenerativa do Rio São Francisco, são iniciativas em implantação, baseados nesses pilares, que visam desenvolver modelos replicáveis em larga escala.

(7) Orientação de projetos e radar de financiamentos – Para facilitar a elaboração e captação financeira de projetos regenerativos é fundamental criar centrais de informações on-line para orientar órgãos públicos (pequenos municípios), organizações não governamentais e empresas. Agências de fomento podem ser ótimos elos de conexão.

É hora de saber se o discurso e o programa de governo do seu candidato ou candidata agregam ideias regenerativas e inclusivas ou apontam armas para aumentar a desagregação e piorar os velhos modelos destrutivos. Hora de regenerar pensamentos, atitudes e votos. 

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