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Opinião
De vascaínos de antigamente

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 06/08/2022 03:00 Atualizado em: 06/08/2022 10:24

Ano de 1956. Eu, na Praça da Santa Cruz, assisto a um enterro em que todos vibravam. Aliás, o  verbo vibrar é pouco. Melhor dizendo: gritavam. Não eram muitos. Mas, o suficiente para chamar a atenção, como, no meu caso, despertou. De singular um caixão de pano – eu não conhecia ainda o de madeira -, coberto com a bandeira do Flamengo. Explico: o préstito simbolizava o enterro do Flamengo, que não conseguira ser campeão outra vez. O enterro era patrocinado por ardorosos torcedores do Vasco. O cortejo ia de porta em porta de flamenguista. Seja eu mais claro: à época, o futebol se resumia ao que era travado no Rio de Janeiro. E ponto final. Daí a presença de torcedores de ambos os clubes, na rivalidade natural que o futebol desperta, chegando ao cume da montanha com o enterro do time derrotado na final.

É desse ambiente que pincelo a figura de Antonio Lima, dono de um bar na Praça da Matriz, de duas ou três portas, carrancudo torcedor do Vasco. Além do bar, tinha um jegue, montaria que lhe servia para ir ao sítio nos arredores da cidade. Evidentemente que não passaria em branco a sua figura ante a verve irônica de frequentadores de seu bar, onde o atendimento não primava por gentileza. Ao pedido do freguês, de manhã cedo, de um pão com manteiga e um copo de refresco, Antonio Lima comentava na cara do freguês: fome da porra numa hora dessa. O Vasco perdendo, a gozação se tornando irritadiça, dizem, Antonio Lima colocou todo mundo para fora. A freguesia revidava, desenhando um cidadão em cima de um jegue, com os dizeres: Antonio Lima e seu jegue vão à Lua de sputinik. Era a época, e, no aspecto, a URSS saia na frente. Como o dono do bar reagiu, não sei. De tudo eu sabia por ouvia dizer.  

A aldeia teve muitos torcedores que inscreviam na testa o time carioca de seu coração, sobretudo em se tratando do Vasco. Antonio Lima foi um deles. Anísio Sabará mandou pintar o escudo do Vasco na platibanda de sua casa. Oliveirinha, não o da farmácia, entupia sua casa de material vascaíno,  sobrando apenas as lâmpadas. Quando morreu, a bandeira do Vasco não lhe faltou no caixão, homenagem que, quiçá, tenha faltado a Antonio Lima.  O certo é que, hoje em dia, como está e pelo que passa a anos, não há mais torcedor do Vasco como os de antigamente.

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