Diario de Pernambuco
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Uma acusada singular

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 02/07/2022 03:00 Atualizado em: 02/07/2022 06:18

Nunca me vi tão cercado por um réu como aconteceu com uma acusada, em cujo  apartamento foi encontrado um volumoso estoque de objetos estrangeiros desacompanhados de documentação. Só faltou pedir a interferência do papa, acreditando eu que, assim, tenha pensado. Ou tentado contato com o espírito de meu pai para interferir na sentença. Um senador foi acionado e, elegantemente, em um minuto, se desvinculou da missão, como quem segurava um objeto metálico quente, querendo dele se livrar rapidamente, gastando o mais na alusão a conversas tidas nos últimos dias com seus ilustres pares. Um desembargador me pediu a designação de um renomado advogado criminalista para atuar como defensor dativo, - que aceitava o encargo -, além de grandes amigos, na área jurídica, se sentiram incomodados pela insistência da acusada, na busca de uma porta para chegar à sala da absolvição.     

A impressão hoje que me vem à mente é que a mulher achava que os pedidos funcionavam,  talvez porque tivesse visto fatos assim em passado bem remoto. Desconfio. E não satisfeita em ver o processo andar, terminou me mandando uma longa e desaforada carta, na qual fazia menção a um ex-ministro do governo federal que tinha sido pego com diamantes em seu poder, fato que a TV deu bastante destaque. Não sei a intenção direta. Mandei juntar cópia da correspondência no feito, ouvindo as partes. O defensor dativo, que não pactuava com as atitudes da acusada, sem querer se sujar com o fato, e, aliás, com razão, renunciou.

Para piorar, gastei uma tarde inteira ouvindo as testemunhas por ela arroladas, companheiras de viagem para os Estados Unidos da América, dia por dia, momento por momento, desde a partida ao retorno, horas e horas, as testemunhas, pensando que era ato rápido, querendo ir para a sua rotina diária, e, eu ali, no comando, com indagações cercando a viagem e as compras. Devem ter jurado a si mesmo que depor em Juízo, nunca mais. E com muita razão.

Limpo o caminho do mato daninho, a caminhada terminou na sentença condenatória, já esperada. A partir daí, com recurso ou com o trânsito em julgado, o feito saía das minhas mãos. A mulher se livrou de mim, e, eu, ainda mais, dela, pelo resto da vida. Enjoo da porra!

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