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Opinião
O Grande Nascimento

Aldo Paes Barreto
Jornalista

Publicado em: 23/06/2022 03:00 Atualizado em:

Nascimento Grande, batizado José Nascimento da Silva, era merecedor do apelido: media dois metros de altura e, embora não fosse espadaúdo, era forte e tinha força desmedida capaz de carregar dois sacos de 60 quilos, um em cada braço, nas tarefas diárias de estivador no Porto do Recife. Só perdia em corpulência para a fama que justamente conquistou como capoeirista valente, destemido, defensor dos desvalidos.
Viveu no Recife entre 1842 e 1936, época em que a cidade era território livre para desordeiros, brabos, capoeiras da linha de frente dos clubes carnavalescos, bandidos que vendiam proteção aos poderosos. O Recife era violento e cada bairro seu tinha seu valentão impondo desassossego aos moradores e temor aos visitantes. Gente como Apolônio da Capunga, Jovino dos Coelhos, João Sabe Tudo, Adama.
Nascimento era estimado, admirado, espantando os arruaceiros manejando a inseparável bengala de maçaranduba quase extensão do corpo. Mulato altivo, o chapelão de abas largas o fazia mais alto; o bigode de vassoura cobrindo todo o traço da boca, dava-lhe respeitabilidade; e a bengala de dez quilos era santo remédio para botar para correr os afoitos que ousassem desafiá-lo.
Raro era o valentão que não tivesse conhecido a força de sua bengala, as artes da sua capoeira. Virou lenda e algumas brigas foram popularizadas em literatura de cordel e registros de escritores consagrados.
Devoto de Nossa Senhora do Carmo, Nascimento não era santo, mas era simples, cordial, e defensor dos pequenos. Notívago, mulherengo, tinha uns xodós nas pensões de raparigas, mocinhas sem destino que ele sempre defendia. Certa vez, um freguês truculento bateu numa dessas mulheres, Nascimento saiu em defesa da jovem, aplicou uma surra no elemento, mandou que ele vestisse as saias dela e desfilasse pelas ruas da zona. O arruaceiro nunca mais apareceu.
Em outra circunstância, Nascimento começou a se bandear para a mulata Luíza, muito bem-feita de corpo, seios fartos, bunda grande, cabelos alvoroçados, moradora da Camboa do Carmo. Não demorou para chegarem aos finalmente. O problema era que a jovem era tida e mantida por abastado comerciante do Recife, conhecido na praça, rico de dinheiro, comendador de diploma na parede.
Contrariado com os ornamentos plantados pela amante, o traído contratou um meganha para matar Nascimento. A empreitada não deu certo. O pistoleiro errou o alvo, Nascimento deu-lhe uma surra de criar bicho e obteve do indivíduo o nome do autor do mando. No dia seguinte foi ao endereço informado e deu uma camada de pau no comerciante corneado.
Achincalhado, o comendador queixou-se ao governador Barbosa Lima e Nascimento Grande teve que buscar ares mais benéficos. Desapareceu por uns tempos. Aposentado, teria ido morar com uma filha no Rio de Janeiro.
Antes da viagem, Nascimento Grande procurou pela protegida. Havia mudado de endereço. Ninguém sabia dela. Até que um moleque disse que a jovem agora era mulher dama e morava numa pensão de raparigas na Rua da Guia.
Nascimento Grande resolveu procurá-la naquele mesmo dia. Mas, era Semana Santa e, sabia, nada funcionava. Lojas trancavam as portas, repartições feriavam, as igrejas abriam para receber os fiéis mas enlutavam todos os santos com panos roxos. Até as casas alegres cerravam portas, cobriam as janelas com cortinas pretas.
As cafetinas, as inquilinas, tementes a Deus e ao fogo do inferno, obedeciam. Embora continuassem pagando religiosamente e sem descontos os aluguéis à piedosa Santa Casa de Misericórdia, dona de quase todos os imóveis da zona. Em dias santos de guarda, tinham que fechar tudo.  Principalmente as pernas.
Nascimento Grande continuou protegendo os fracos, os oprimidos, as desamparadas filhas de Eva e morreria em paz aos 94 anos.



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