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Opinião
Jornalistas sob ataque, sociedade em perigo

Alessandra Nilo
Jornalista , coordenadora da ONG Gestos

Publicado em: 14/06/2022 03:00 Atualizado em: 14/06/2022 05:45

No dia 4 de junho, o repórter Lucas Neiva, do site jornalístico Congresso em Foco, foi ameaçado de morte. No dia seguinte, a editora Vanessa Lippelt passou a receber ameaças, inclusive de estupro. Ambos tiveram seus dados vazados e, no domingo (5), o site sofreu um ataque de hackers que o deixou fora do ar por quase 9 horas.

“Eu já tenho seus dados e os dados de toda sua família. Viajarei até sua casa com a arma que estou enviando na foto em anexo, tenho 200 balas (...) fazer a festa no seu cafofo e provavelmente morrer em um belo confronto com a polícia depois de estuprar você e todas as crianças presentes”, dizia a abominável ameaça enviada à Vanessa, assinada com o nome completo do suposto agressor e seu endereço em Curitiba (PR).

A razão dos ataques foi uma reportagem sobre as redes bolsonaristas produtoras de Fake News que se organizam em  plataformas imageboard (conhecidas como chan) para favorecer o presidente Jair Bolsonaro (PL) durante a campanha eleitoral que se aproxima. Lucas e Vanessa, cumprindo seu papel de jornalistas, mostraram que usuários anônimos do site 1500chan ofereceram pagamentos em criptomoedas para quem fabricasse memes e notícias falsas, além de disponibilizarem o endereço de uma carteira de bitcoin para quem quisesse doar para a tal campanha de Fake News.

Senadores e entidades de representação de classe cobraram celeridade nas investigações do caso e, na terça-feira (7), o deputado Nereu Crispim (PSD-RS) encaminhou os registros da ocorrência e as mensagens ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes para que fossem incluídas ao inquérito das Fake News, que investiga a produção e disseminação de desinformação nas redes sociais.

Mas mal pudemos respirar: ainda no dia 5 junho, enquanto Vanessa era ameaçada de morte, a notícia do desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips ganharam o noticiário internacional, alertando o mundo para os perigos que os e as profissionais de imprensa enfrentam, cotidianamente, no país.

Essa situação, obviamente, não é recente. O Brasil, sabemos, é um país com notório e longo histórico totalitário, que sistematicamente empreendeu ações para censurar a imprensa, calar jornalistas e defensores/as de direitos, mediando o interesse público por cartilhas anti-democráticas. Jamais esqueceremos as imagens como a de Vladimir Herzog enforcado em uma cela do DOI-Codi, em São Paulo, após ter sido ‘suicidado’ pela ditadura militar.

Vale lembrar que, além do Brasil ocupar o 3º lugar mundial no ranking de assassinatos de defensores de direitos, segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), nos últimos dez anos ao menos 30 profissionais de imprensa foram assassinados no exercício da profissão. Essa história truculenta não pode mais ser normalizada e aceita! garantir a proteção de profissionais da imprensa e de ativistas no Brasil é hoje mais urgente do que nunca: segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), 430 ataques a comunicadores/as foram registrados em 2021 (foram 428, em 2020) e estes foram os anos onde houve mais ataques, desde o início da série histórica na década de 1990.

A situação é gravíssima, principalmente considerando que os dados apontam como principal agressor justamente o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), responsável por 147 casos em 2021 (34,19% do total) – 129 episódios de descredibilização da imprensa e 18 agressões verbais. O exemplo presidencial tem estimulado a barbárie da extrema-direita e suas tradicionais práticas fascistas. Pela primeira vez em 20 anos, o Brasil passou a ocupar a zona vermelha do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, segundo o levantamento da RSF.

O perigo diante de nós é um fato e tem implicação direta, inclusive, com as eleições que se aproximam: em 2022 crescem as ameaças à realização do pleito eleitoral e às instituições democráticas, cenário que tem sido pautado incansavelmente pela imprensa porque, além de serem uma grave ameaça à Democracia e à liberdade de expressão, quando as vidas de Lucas, Vanessas, Doms e Brunos perdem o valor isso, indica sobretudo a opção deliberada do Estado brasileiro em violentar seu próprio marco legal e de ignorar compromissos internacionais.

O Brasil se comprometeu, por exemplo, a promover a Paz, a Justiça e a ter Instituições Eficazes (Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16) que pressupõe “assegurar o acesso público à informação e proteger as liberdades fundamentais, em conformidade com a legislação nacional e os acordos internacionais”. Mas aqui, vivemos o contrário.

Por isso, mais que palavras de apoio e de solidariedade veiculadas em redes sociais, o que precisamos das autoridades nacionais é que elas atuem, com urgência, para evitar mais violências e vidas perdidas, resguardando o papel fundamental que a imprensa tem para a Democracia. Mas isso exige identificar e responsabilizar os agressores, pois a intimidação de jornalistas, veículos de informação e ativistas são, antes de tudo, um cala boca ao nosso povo, uma forma criminosa de cercear o debate público em torno dos grandes temas de interesse social.

Sabemos também que não existe Democracia sem uma imprensa livre e crítica, mas as instituições da República só serão levadas a sério no Brasil quando cumprirem o seu papel e fizerem valer os instrumentos protetivos, punindo severamente qualquer pessoa que tente amordaçar a verdade. Porque nós, jornalistas e defensoras de direitos humanos, existimos para fazer – e seguiremos fazendo – as perguntas mais incômodas, porém necessárias, para que os fatos se revelem e a justiça prevaleça. Por exemplo: quem ameaça Lucas e Vanessa? Quem mandou matar Dom e Bruno?  E por que?

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