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Opinião
Brasil, um país insólito

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 28/06/2022 03:00 Atualizado em: 28/06/2022 05:50

Com pedido antecipado de desculpas, advirto aos leitores que o texto irá usar algumas referências e falará de Brasil e política. Isso advém do tanto quanto, hoje, em ano eleitoral, se inventam utopias e distopias, para cada um, o tempo todo, sem o mínimo de discernimento da realidade. Num curto espaço de tempo, do ano de 2013 para cá, “o ano que insiste em não terminar”, somente fizemos cavar, ainda mais, nosso fosso, nos tornando arremedo de República, com protagonismo surreal do Executivo, Legislativo e Judiciário. Temos uma “pedra no meio do caminho”; 2022, cujo desfecho, ao que se “ilumina”, pouco pacificará e ajudará este país.

O Brasil para trás, não existe mais, por mais que tenhamos na leitura da História da Riqueza no Brasil, de Jorge Caldeira, boas referências para entender o presente, ou no livro De Anchieta a Euclides – Uma breve história da literatura brasileira, de José Guilherme Merquior, consigamos imaginar como afundamos, culturalmente, do século 20 ao início do século 21; ou mesmo, ainda, no não menos importante livro Guerra Cultural e Retórica do Ódio – Crônica de um Brasil Pós-Político, de João Cezar de Castro Rocha, possamos entender a razão pela qual a esquerda e a direita não desejam o debate, sou forçado a concluir que nosso país não existe mais.

Vivemos num lugar onde a expectativa de vida média, em 2021, subiu para 76,66 anos (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-11/expectativa-de-vida-no-brasil-sobe-para-768-anos). Num canto do mundo onde 50% da arrecadação em tributos se dá sobre consumo, cuja média, nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), é de 32%, o que se inverte em relação ao imposto de renda, onde a média da arrecadação nos países é de 34%, enquanto no Brasil é de apenas 25% (https://www.oxfam.org.br/justica-social-e-economica/o-valor-do-seu-imposto/).

Tão estarrecedor quanto, e necessário ser exposto, segundo levantamento do site Finance One, dado recente (22/02/2022), em alinhamento com levantamento anterior da FGV Social, do ano de 2019 (assim não se atribua à pandemia), analisando-se as declarações do Imposto de Renda de Pessoa Física, dentre as 10 (dez) atividades mais bem remuneradas no Brasil, sete estão no setor público (https://financeone.com.br/carreiras-bem-remuneradas-brasil/).

Outro dado estarrecedor é o de que, não menos que 67,8% dos servidores públicos federais, segundo o IBGE, estavam entre os 10% mais ricos da população, em 2017, último dado disponibilizado até o final do ano de 2020, implicando num contraste absurdo para um país que pretende ser justo e equitativo para com jurisdicionados e excluídos, cujo teto da aposentadoria dos pobres mortais do mundo privado chega a um pouco mais de R$ 6 mil, enquanto o de uma elite do funcionalismo público chega a mais de R$ 28 mil, sem contar com os penduricalhos camuflados nos escaninhos da conveniência burocrática. Nosso patrimonialismo é histórico e cultural e existe no eleitor que se vende para votar, no produtor que passa propina para sobreviver e servidor público que acha que deve ficar rico.

Infelizmente, teremos um 2022, no meio do caminho, conduzido por um debate raso, falso e cínico. O Brasil não vai mudar enquanto não resolvermos disparates deste tipo. É inacreditável como a maioria dos cidadãos não atentam para as aberrações com as quais convivemos, sob um falso dilema de que tudo que vem do privado é ruim, é de direita, e do que é público, é bom, primazia de uma esquerda iluminista. Isso é irreal, é falso, constitui-se muito mais numa fórmula retórica de uma elite acostumada a ter benefício fácil e manter o patrimonialismo preso em suas mãos. Um país sustentado por regras escandalosas, que usam o dinheiro dos pobres para manter uma elite encastelada (no poder público e no setor financeiro privado). Isso não pode dar certo. Por isso afirmo que o ano de 2013 ainda não acabou. Aquele ano, deixou um Brasil para trás. A análise do que ocorreu ainda deverá ser objeto de muitas interpretações no futuro, mas aquele ano ainda não acabou, e, passado 2022, teremos muito pouco a comemorar. Não sou pessimista, apenas um otimista não iludido.

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