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Opinião
Uma honraria para o Museu da Fundaj

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 16/05/2022 03:00 Atualizado em: 15/05/2022 22:24

Há exatos 100 anos, Gilberto Freyre, quando estudante nos EUA, teve um sonho revelado no seu Diário, em 1922: Se pudesse, quando voltasse ao Brasil, organizaria um museu antropológico segundo a orientação de Franz Boas e Paul Rivet, ambos seus amigos. Teria nascido desse sonho o que seria o nosso Museu do Homem do Nordeste. Gilberto alimentava o sonho de criação de um Museu do Homem, síntese do passado, da vida e cultura do Homem, “especializado na apresentação sistemática, didática, cientificamente orientada, de material antropológico relativo à gente brasileira”. Certa noite, Albert Einstein teve um sonho parecido: sonhou que estava pilotando um trenó que descia à toda velocidade um morro repleto de neve. O trenó estava tão rápido que atingiu a velocidade da luz, fazendo com que todas as cores se unissem em uma só. Seu interesse pela velocidade da luz, dizem, teria começado ali. Os gênios nunca deixam de sonhar alto. Ao falarmos do sonho é mesmo que falarmos de desejo. Desde Platão o sonho tem parentesco mais forte com desejo, o desejo como falta. Tudo na vida é sonho e desejo.  O mito de Platão fala de ânsia da incompletude.

A concessão da Medalha do Mérito Museológico ao Museu do Homem do Nordeste/Fundação Joaquim Nabuco, pelo Conselho Nacional de Museologia, é uma honraria que muito enaltece a instituição fundada por Gilberto Freyre. Vem confirmar e dar o testemunho do que visitantes de todos os lugares já disseram, ao longo dos anos, como prova de admiração e reconhecimento, diante do que se concentra nesse museu: um expressivo panorama de nossa formação antropossocial. Não é novidade o fato de ser, na sua especialidade, na linhagem de representatividade, um dos exemplos de maior êxito quanto ao seu conceito primordialmente educativo e de documentação, em colaboração permanente com escolas, instituições culturais, museus, bibliotecas, arquivos, universidades, dentro e fora do Brasil. Nele, são retratados aspectos representativos da trama social  que envolveu o homem nordestino, a partir da sua formação étnica, no itinerário percorrido da casa-grande à senzala, do sobrado ao mocambo por entre as malhas do domínio patriarcal. Uma história de aproximações, de convivências e interpenetrações de valores. Em pé de igualdade com os seus congêneres dentro e fora do Brasil, a começar pelo Musée de l’Homme, de Paris, e ouso tal comparação porque dele me tornei visitante atento aos detalhes, o dia inteiro, mais de uma vez. O museu francês, criado pelo paleontólogo, etnólogo e sociólogo Paul Rivet, de quem Gilberto Freyre era amigo e colaborador. Um colaborador tão jovem, mais confiável e especial que um certo Valois, seu assistente, que o iria substituir. Tamanha afinidade havia entre eles, amigos e estudiosos de antropologia, que Gilberto se tornaria hóspede de Rivet “várias vezes quando de passagem pela capital francesa”, como registra Paulo Duarte na revista de cultura Anhembi, uma das melhores publicações em nossa língua na década de 50, embora radical em certas posições ideológicas. (Um Paulo Duarte inicialmente pouco simpático às ideias de GF).

Gilberto Freyre, ainda jovem, não perdia de vista o museu francês, experiência talvez trazida para o que seria o Museu da Fundaj. “Um museu como aquele não havia então em parte alguma do Brasil”. Gilberto era conhecido pelo staff da Unesco como “um dos mais conhecidos sociólogos do seu tempo”.  (Por essa e outras glórias e honrarias vindas da Europa e dos EUA pagaria caro no Brasil o resto da vida). Ao passar pelo museu francês, até chegar ao que seria o Museu da Fundaj, Gilberto já conhecia o perfil de museus da Inglaterra e dos Estados Unidos, onde os museus tradicionalmente representavam um dos atores da dinâmica cultural, de transmissão de conhecimento. Neste sentido, o museu concebido por Freyre, digo eu, é pensado, na sua amplitude, na sua metodologia e conteúdo, como uma instituição indispensável e insubstituível – a síntese do que nele é vivo e cristalizado, como instrumento de formação do indivíduo, “mais vivente e convivente com os visitantes”. Cheio de fortes sugestões para a inteligência, sem perder a sua finalidade educativa, “centro de estudos e pesquisas”.

Freyre afirma, no caderno pedagógico O Homem do Nordeste (1982), que a Fundação Joaquim Nabuco não estaria completa em sua organização básica, enquanto não abrisse aos estudiosos, em particular, e ao público, em geral um museu que fosse uma documentação viva da cultura do lavrador, especialmente do Nordeste canavieiro, da senzala, sobre a casa-grande.

A entrega da medalha foi realizada no último dia 10, no Cinema do Museu, contando com a presença do presidente da Fundação Joaquim Nabuco, Antônio Campos, da presidente do Conselho Federal de Museologia (Cofem), Rita de Cássia de Mattos, o presidente do Conselho Regional de Museologia 1ª Região (Corem 1R), Saulo Moreno Rocha, e a coordenadora-geral do Muhne, Fernanda Guimarães.

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