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Opinião
Os 80 anos do meu pai

Silvio Neves Baptista Filho
Desembargador do TJPE

Publicado em: 21/05/2022 03:00 Atualizado em:

Meu pai, Sílvio Neves Baptista, fará 80 anos amanhã, dia 22 de maio. Apesar da sua rica história profissional como professor universitário, servidor público, e os quase 60 anos ininterruptos de advocacia privada, o momento pede para que eu escreva sobre o pai e a pessoa. Isso porque vê-lo chegar nessa idade com saúde e ter o privilégio da convivência próxima, tornam as demais questões menores, quase irrelevantes.

Falar dele é expor as lembranças da minha infância, adolescência e fase adulta. A personalidade, minha e dos meus irmãos, é fruto da junção do que recebemos nos primeiros anos de nossas vidas, somada às escolhas que de forma consciente ou inconsciente fizemos. Todavia, a nossa formação moral vem muito do amor e dos exemplos dele recebidos como filho, irmão, pai, marido, avô e amigo.

Primogênito de uma família de oito filhos, perdeu o pai precocemente, antes dos 30 anos, e assumiu perante os irmãos mais novos funções (que ainda hoje exerce) tipicamente paternas. Como marido, prefere a companhia da minha mãe a qualquer outra. Com ela divide a vida, os projetos, as vitórias profissionais, as centenas de viagens, e a convivência com os filhos e netos.

Sempre foi um pai carinhoso, preocupado, e nunca chegado a sermões. O “não” era a primeira palavra para os pedidos que lhe trouxesse inquietudes com questões para ele desconhecidas. Para reverter a negativa, era preciso trazer novos argumentos ou apelos emotivos. Estes últimos quase sempre funcionavam.

Apesar da firmeza dos ideais, a intransigência não é um traço de sua personalidade. Durante a vida pessoal e profissional, sempre conviveu com opiniões distintas ou antagônicas às dele, sem sentir a necessidade de se afastar ou querer convencer do contrário.

Ao longo da minha quase cinquentenária vida, ainda não conheci alguém com tamanha lealdade. Permanece sempre ao lado dos amigos ainda quando esses erram ou passam por momentos difíceis da vida.

Outra característica marcante é a gratidão por quem o ajudou em algum momento da carreira. Essas pessoas são faladas até hoje com relevância e carinho como se pessoas da família fossem. Cito como exemplo o professor Heraldo Almeida, que esteve com ele na primeira aula ministrada na Faculdade de Direito do Recife, e o socorreu na cheia de 1975.

A conduta comprometida e responsável, a firmeza dos posicionamentos assumidos, a preocupação em não só ser correto, mas sempre atento em demonstrar essa correção, são traços fortes na sua personalidade.

Apaixonado pelas profissões que abraçou, viveu intensamente o magistério e o serviço público. Como advogado, permanece atuando com o mesmo afinco e dedicação de um recém-formado.

O seu nome me abriu portas, porém trouxe o peso da comparação. Aprendi a frustrar quem nutrisse expectativa nos meus conhecimentos, pois somos pessoas diferentes cujas vidas forneceram necessidades, caminhos e anseios distintos.

Com a mudança da minha carreira da advocacia para a magistratura, a rigidez moral repassada se faz cada dia mais presente. A vida do juiz possui limitações estranhas à advocacia, e exige uma maior vigilância na conduta. Essas regras de comportamento não foram ensinadas em conversas pontuais, mas na confluência da palavra com o agir, que no processo de amadurecimento foram incorporadas de maneira involuntária, transmitindo a certeza de que o maior patrimônio de uma pessoa não está no acúmulo de riquezas ou bens, mas na reputação construída ao longo da vida.

Devo tudo a você, meu pai. Feliz aniversário. Que essa data se repita por muitos e muitos anos.

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