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Opinião
Leopoldo Nachbin, centenário de um gênio pernambucano

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 24/05/2022 03:00 Atualizado em:

O centenário de nascimento do cientista e matemático pernambucano Leopoldo Nachbin (1922-1993), ainda não foi devidamente lembrado, deveria ter sido um dos pontos altos do nosso calendário cultural, se o Recife fosse mais justo com a memória dos seus grandes vultos do passado. Na cidade não há sequer uma rua com o nome dele.

Sabe-se que, no primeiro ano do curso de engenharia, ainda jovem, Leopoldo resolveu um dos teoremas considerados insolúveis desde a mais alta Antiguidade. E que imediatamente foi chamado à Sorbonne para explicar o processo numa série de palestras, tornando-se de imediato conhecido e respeitado nos meios acadêmicos da Europa e dos EUA. A sua área de atuação era principalmente Análise Matemática e trabalhou, no Brasil, em instituições sediadas na cidade do Rio de Janeiro e em Brasília.  No exterior, esteve em diversas universidades. Em 1967, foi-lhe oferecida uma posição acadêmica permanente na University of Rochester, USA. Ao aceitar, ele ganhou uma George Eastman Professorship, posição que foi criada especialmente para ele. Foi o primeiro matemático brasileiro, ainda muito jovem, de fama internacional. Integrante de numerosas associações científicas do Brasil e de outros países, com livros publicados e traduzidos em outras línguas, foi o primeiro matemático a receber o Prêmio Moinho Santista, criado para projetar grandes nomes das Ciências, Letras e Artes do Brasil por suas realizações acadêmicas e intelectuais. Em 1982, recebeu o Prêmio Científico Bernardo Houssay, da Organização dos Estados Americanos (OEA), sendo novamente o primeiro matemático a quem este prêmio foi conferido. Em 1983, foi eleito membro da recém-fundada Academia de Ciências da América Latina.

Antes da fama, como professor na Universidade de Paris, integrou a geração de ouro da ciência e da cultura pernambucana, com notória repercussão no resto do país, até nos centros acadêmicos do exterior. Figurou no que podemos chamar  panteão pernambucano das  glórias do saber cientifico, ao lado, (para citar apenas  os das  Ciências Exatas, da Terra e Engenharias) de José Leite Lopes, Gilberto Osório de Andrade, Rachel Caldas Lins, Mário Schenberg, Luiz de Barros Freire, João de Vasconcelos Sobrinho,  Joaquim Maria Moreira Cardoso, Jaime de Azevedo Gusmão, Ricardo de Carvalho Ferreira, Ruy Luís Gomes, Paulo José Duarte, Sebastião Simões Filho, Don Carlo Borghi, Fernando de Souza Barros, Roberto Burle Marx,  Zeferino Rocha. Nas Ciências Biológicas e Saúde: Aluízio Bezerra Coutinho, Nelson Ferreira de Castro Chaves, Fernando Jorge Simão dos Santos Figueira, Augusto Chaves Batista, Ulysses Pernambucano de Mello Sobrinho, Ageu de Godoy Magalhães, Naíde Regueira Teodósio, Oswaldo Gonçalves de Lima, Dárdano de Andrade Lima, Mario Lacerda, Renê Ribeiro, Frederico Simões Barbosa, Adonis Reis Lira de Carvalho, Suely Lins Galdino, Amaury Domingues Coutinho, Salomão Kelner. É indiscutível a marca deixada por essa geração de cientistas na inteligência brasileira. Jamais, que eu saiba, com o passar dos anos, numa só década, houve no Recife uma geração com tamanha força de influência e prestígio, aqui e fora do país. Aníbal Fernandes , de quem Leopoldo foi aluno, dizia neste Diario, para quem quisesse ouvir, que ele seria um dos maiores matemáticos de sua geração.

Poucos sabem que, na sua juventude, no Recife, Leopoldo Nachbin e Clarice Lispector mantiveram um pacto de amizade que iria durar a vida inteira. Um especial querer bem, parecido com aqueles grandes vultos que construíram o livro As Grandes Amizades, de Raïssa Maritain. A bela judia e filósofa Raïssa, de Jacques Maritain, (vultos sempre lembrados no Recife,  no Centro Dom Vital, leia-se Luiz Delgado e Nilo Pereira). Não era namoro, era a “necessidade do outro”, como diria Gustavo Corção. Ambos se protegiam diante das perplexidades do mundo e seus mistérios, dos paradoxos da vida, quando tudo era novidade, surpresa, descoberta, desejo. Os dois eram vistos todo dia na mesma sala do colégio recifense da Rua da Aurora, o diretor os chamava de “impossíveis”, e saiam juntos, de bonde, passeando pelas praças e ruas da cidade. O Recife, nessa época, nos arredores da Boa Vista, tinha um ar sonolento, quando ainda se ouvia, mesmo à distância, o carrilhão do Diario de Pernambuco. Leopoldo era estoico e aristocrático, impetuoso. Clarice, filha de um caixeiro viajante, não podia conter o seu transbordamento de brincalhona. Um vivia para o outro.  

Estavam destinados a serem amigos para sempre.  Os dois carnavaleavam a vida.

Foram anos de meninice no Recife, que Clarice dizia ter sido os mais felizes de sua vida, vividos nas ruas da Aurora, da Imperatriz, da União, da Saudade, nas praias de Olinda, um tempo que iria plasmar a alma de dois jovens que se recusavam envelhecer, num permanente traço lúdico. Clarice, em uma crônica, mostra a admiração que tinha por Leopoldo. A partir daí, dizer mais de Clarice e Leopoldo é mesmo que não dizer nada.  Ou quase nada. O tempo passou, Clarice e Leopoldo tomaram o seu destino, mas nunca se perderam de vista. Uma amizade, porém, muito diferente, a de Clarice, ucraniano-pernambucana, dedicada ao escritor Lúcio Cardozo, homossexual, com quem deixou-se cair de mãos abertas, uma experiência afetiva descrita por ela “como um corcel de fogo”, uma rajada de emoções.

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