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Opinião
Até quando seremos marcadas, mutiladas e mortas por que ousamos dizer não?

Carolina Ferraz
Jurista, feminista, especialista em direito antidiscriminatório, coordenadora e co-autora do Manual Jurídico Feminista

Publicado em: 26/05/2022 03:00 Atualizado em: 25/05/2022 22:49

O patriarcado é responsável pela coisificação do feminino. De como somos consideradas posses e propriedades dos homens! De como somos acessórios extensores de seus desejos e vontades sem direito à recusa e ao término! Como mulheres nossas vontades são o tempo todo subnotificadas e nossos desejos motivo de pouco caso.

Olhar o rosto de uma jovem mulher marcado de forma tão bestial por uma tatuagem com o nome do ex-namorado num macabro símbolo da construção de amarras que a tornam aos olhos de todos os outros homens - meramente a coisa de alguém - prova a cada uma de nós que lutamos uma batalha desigual pelo reconhecimento do direito de existir, sem marcas, com todas as partes dos nossos corpos preservadas e de não sermos mortas!

Ao mesmo tempo cria a preocupação de amparo, acolhimento e de buscar reparação – quem são as vítimas da violência de gênero em nosso país? Não há um único padrão. As opressões são distribuídas entre todas as classes sociais, faixas etárias e raças – mas inegavelmente as mulheres pretas e periféricas estão submetidas a doses mais expressivas de opressões. Se faz urgente travar esse debate trazendo à tona seus diversos  marcadores como os raciais, etários e sociais. Porque é inadmissível que continuemos sendo marcadas e mortas (efetivamente ou metaforicamente).

O que dizer a uma jovem mulher marcada para sempre pelo ódio de quem não consegue aceitar o fim de um relacionamento? O que fazer diante da impossibilidade de garantir a preservação da sua vida e integridade do seu corpo? Como olhar nos olhos de alguém tão jovem e que já experimentou a violência em suas nuances mais perversas?

Falhamos como companheiras de uma jornada de luta?! Somos tão poucas na luta por equidade de gênero que estamos fadadas à derrota imposta pela crueldade patriarcal fundada na dominância masculina que prega a mutilação, o ódio e a morte quando ousamos dizer não? Enquanto seguirmos consideradas pelo estado com sua escassez de políticas públicas que  combatam a violência e a desigualdade entre os gêneros e, pela sociedade brasileira que faz de conta que nossas dores, corpos e luta não existem,  como se fôssemos cidadãs de segunda categoria continuaremos marcadas, torturadas e mortas.

Desculpa, mana! Olhar seu rosto marcado pelo ódio, despertou o pior da impotência dentro de mim… E venho escutando meus silêncios, retumbantes e eloquentes e eles ecoam o mantra, “viver dói em demasia, por que às vezes as dores femininas são tão excruciantes?!”

Falar em justiça para uma mulher torturada e covardemente marcada parece muito pouco quando ela olhou de perto a crueza do ódio! Continuar acreditando na equidade de gênero quando  enterramos nossas companheiras, recolhemos seus corpos mutilados e abraçamos existências dilaceradas pela violência do machismo é um desafio diário de como não nos perdermos de nós mesmas… Dói em demasia e dói tudo dentro da gente… É preciso ser mulher para entender como nossas almas são dilaceradas e seguem em carne viva e como isso parece não ser levado em consideração por um país que aprendeu a mais vil de todas as lições: a não se importar com as dores das mulheres! Se faz urgente repensarmos estratégias para amplificar nossas vozes para que outras mulheres não sejam mortas ou mutiladas! É preciso exercer o direito à vida plena e livre, assim como, são livres os homens que não morrem porque dizem não!


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