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Opinião
Não existe um "projeto militar de Brasil"

Felipe Sampaio
Co-fundador do Centro Soberania e Clima, foi chefe da assessoria do ministro da Defesa (2016-2018)

Publicado em: 20/01/2022 03:00 Atualizado em: 20/01/2022 06:02

O fato de o ministro da Saúde ter dirigido a Sociedade de Cardiologia não implica em uma conspiração médica para um projeto obscuro de país, ou que os médicos sejam ‘bolsonaristas’ e negacionistas.

O mesmo vale para as carreiras públicas. Há diversidade de pensamento no Incra, na Embrapa, no IBGE e no Ibama, como no Judiciário e no Parlamento. Pode-se estender esse raciocínio, ainda que precário, para o caso das Forças Armadas.

Os militares não têm um ‘projeto de Brasil’, por algumas razões. Primeiro, porque propor projeto de desenvolvimento do país não é sua atribuição constitucional. Segundo, porque essa matéria não compõe sua formação acadêmica nem sua instrução diária. Por fim, porque os militares não reúnem condições (nem interesse) para formular e liderar um projeto de país.

O Brasil tem 200 milhões de habitantes, um PIB de um trilhão e meio de dólares, um sistema financeiro colossal, agronegócios e mineração em escala global e um meio ambiente com importância planetária, tudo isso ligado por redes complexas de serviços e infraestrutura.

Claro, há militares capazes de colaborar na proposição de políticas públicas. Assim como pode haver entre eles indivíduos e grupos que ambicionem poder e renda acima do que prevê a carreira militar.

Sendo 300 mil especialistas em ocupar territórios, muitos buscarão espaços no Legislativo, no Judiciário, no Executivo, na iniciativa privada, na academia, no sistema financeiro, entre outros. Mas, não estamos em 1889, nem 1964.

Sendo assim, não se pode dizer que haja no meio militar uma visão única de país, um plano de poder consensual, um pensamento ideológico homogêneo, que defenda uma solução golpista por princípio.

Curiosamente, tanto seus críticos quanto seus admiradores, cobram-lhes reiteradamente que se revele o tal projeto dos militares para o Brasil. Não existe, vale repetir. Assim como não se pode esperar que a Polícia Federal ou a Petrobras, por exemplo, apresentem um projeto de país.

Por outro lado (é preciso admitir), a sociedade, as elites, imprensa e políticos brasileiros seguem enfeitiçados por uma cultura militarista que encanta a todos. Afinal, nossa República não nasceu de uma revolução iluminista. Não nasceu sequer como democracia.

Ao contrário, muitos dos nossos ‘revolucionários’ republicanos eram simpatizantes da monarquia e da escravidão. A rigor, o próprio imperador era mais simpático à abolição (e a proclamou) e à república do que os ‘republicanos’ que o deportaram.

Nossa República chega a ser incidental no berço, porque a ideia inicial dos marechais era exigir do rei um gabinete de ministros menos liberal. O movimento descambou para a troca do monarca por um militar-presidente logo na largada.

Os positivistas, fãs de Augusto Comte, aproveitaram para experimentar a ‘Ditadura’, substituindo aquela monarquia centralista e familiar, e antes que se instalasse alguma democracia liberal demais para a época.

Democracia que veio com o terceiro presidente (o primeiro civil), resistindo até hoje, entre bailes e boiadas. Contudo, o DNA militar segue no imaginário nacional, seja como fantasma, seja como utopia. Ironicamente, até mesmo dois dos símbolos da esquerda brasileira - Lamarca e Prestes - também foram militares.

Enquanto isso, é urgente observar que nenhum setor da sociedade, à esquerda ou à direita (com destaque especial para a omissão do Legislativo), se dispõe a dialogar com os militares sobre os assuntos que lhes dizem respeito, como a Estratégia Nacional de Defesa, Soberania e, mais recentemente, as mudanças climáticas.

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