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A inflação vai persistir?

Alexandre Rands Barros
Economista

Publicado em: 15/01/2022 03:00 Atualizado em: 15/01/2022 06:50

Os números fechados para a inflação de 2021 mostraram uma taxa de 10,06% (IPCA). Esse índice é o terceiro maior entre os países do G-20 (atrás apenas da Argentina e Turquia). É bem superior à meta de inflação para o ano, que era de 3,75%. Em dezembro a taxa foi 0,73%, sendo menor do que a de novembro (0,95%). Normalmente a inflação em dezembro é superior a de novembro. Esse talvez seja um indicador que ela já está recuando. Apesar dessa leve queda, vale analisar se ela deverá persistir ao longo de 2022. As projeções de mercado (Boletim Focus) são de que deve ficar próxima a 5% esse ano. Isso representaria uma queda substancial. O principal argumento tem sido de que: (i) a elevação da taxa de juros vai reduzir a demanda agregada; (ii) os impulsos advindos de estrangulamento das cadeias produtivas por consequência da Covid-19 deverão ser atenuados; e (iii) o déficit público será menor do que no ano passado. Talvez haja um pouco de otimismo nesses argumentos. Também se supõe que deverá haver estabilidade ou redução de movimentações adversas nos preços do Petróleo, energia elétrica, commodities primárias e taxa de câmbio.

Diante das suposições, percebe-se que os riscos de persistência inflacionária são elevados. Movimentos adversos no déficit público, podem ocorrer, pois 2022 é um ano de eleição e os governos federal e estaduais deverão gastar mais. Não faz parte da visão de mundo do presidente evitar gastos públicos. Além disso, o déficit que conta é o nominal, pois ele é que introduz poder de compra na economia, sem ter contrapartida de produção. A taxa de juros mais elevada aumenta esse déficit, pois inclui pagamentos de juros sobre dívida pública. A busca por reduzir a inflação nos países desenvolvidos poderá também pressionar a taxa de câmbio, pois as taxas de juros serão provavelmente elevadas nas economias centrais. Essa é outra ameaça à redução da inflação. Incertezas dos agentes poderão também reduzir a expansão da oferta ao longo do ano, sem que se faça alguns investimentos para remover gargalos produtivos. Isso também pressiona a inflação. Ou seja, há muitas ameaças ao seu controle. Vale salientar que a Covid-19, que gerou os gargalos produtivos por desestruturação das cadeias produtivas, parece que vai se estender ao menos pelos primeiros meses do ano. Ou seja, talvez haja um pouco de desejo nas expectativas de redução da inflação pelos agentes de mercado.

Diante de tal situação os candidatos com chances eleitorais devem evitar o populismo irresponsável e apresentar propostas que possam realmente ser implementadas sem gerar muita incerteza para as pessoas que trabalham no dia-a-dia, sejam como empresários, autônomos ou trabalhadores. A segurança de que o Brasil não vai embarcar em uma nova aventura, como fez em 2018, é essencial em ano com tanta ameaça ao controle da inflação e diante de uma população já tão sofrida, que não merece mais pagar pelas irresponsabilidades dos governantes e inflação descontrolada. Responsabilidade é algo que não pode se esperar do atual presidente e candidato. A experiência de três anos no poder já mostrou isso. Mas os demais podem tentar ser responsáveis.

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