Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
No Museu da Fundaj: a bacia de barbear, a pedra mó, os bilros e o chapéu de Dom Quixote

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 24/11/2021 03:00 Atualizado em: 23/11/2021 23:40

Desde o começo das minhas aulas no Foto-Cine Clube do Recife, com  Alexander Berzim (1903-1979), o mais importante centro pernambucano de estudos avançados da Fotografia como arte maior, eu era conhecido  pelo hábito de ver tudo distorcido, e que, segundo o meu saudoso mestre e amigo, poderia levar isso a sério.  Lembrei-me dessa lição ao visitar o Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco, anexo do campus Casa Forte, tantas vezes catalogado como um dos mais representativos na sua especialidade, não só antropológica, das Américas, e que tem passado por excelente reforma e modernização na gestão do escritor Antônio Campos.  Portanto, o vício vem de longe, entrando sem pedir licença pelas frinchas de minha porta.

Quando olhei para a bacia de barbear, componente do acervo, uma peça de cobre do século 19, vi a comunhão perfeita, no formato e sem nada tirar, com o chapéu de Dom Quixote de la Mancha, que desde 1674, não se dobra, não sai da cabeça do “cavaleiro da triste figura” em seu leve caminhar.  Sequer no alto do cerro Calderico, onde era possível ver os 12 moinhos de vento (assustadoramente sem sentido) que inspiraram o divino Cervantes a narrar a clássica luta contra os imaginários gigantes do livro Dom Quixote de la Mancha,  esse chapéu não sai do lugar. O mesmo chapéu de abas largas pintado por Gustave Dore (1832-1883), que eu vi no Museu do Prado. Um sombrero não igual aos de copa, ala ancha e pico, como diria Cláudio Aguiar (1944 -   ), tão íntimo da Salamanca de Miguel Unamuno. Era como o chapéu do Indiana Jones, personagem da série de filmes de George Lucas e Steven Spielberg, parecia colado à cabeça e à alma do personagem; como o chapéu de Gustave apaixonado perdidamente pelo jovem Tadzio, do romance Morte em Veneza, de Thomas Mann ( 1875-1955); como o chapéu de Santos Dumont ,(1873-1932) o gênio, eleito sem pedir nem saber para a ABL, tendo ficado indignado por causa disso;  como o chapéu de Plinio Pacheco (1926-2002), que não saia da cabeça,  nem quando o chão tremia na cena bíblica da Ressurreição do Senhor Salvador do Mundo e das Almas, em Nova Jerusalém, espetáculo teatral que será brevemente tombado como  Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. Outra peça do Museu da Fundaj,  a almofada de bilros,  com seus fios presos à pequena madeira, uma tradição criada na Bélgica no século 15. Meu olhar fotográfico esteve voltado para os bilros desencarnando-se em ícones sonoros, criando elos com um poema sinfônico talvez de Leopoldo Migues (1850-1902). O som dos bilros nas mãos da mulher rendeira era de uma sonoridade única, na sua clara e luminosa astúcia,  capaz de ser ouvido a longa distância, como os sinos matinais da abadia do Mosteiro de São Bento,  como o voo das libélulas, que têm olhos poderosos, 30 mil lentes e uma visão de 360º.  

Pedra Mó, trazida por doação do engenho Vila da Rainha, município de São João da Barra, Rio de Janeiro. É conhecida há mais de 2 mil anos. “Deuteronômio 24:6 - Não se tomarão em penhor as mós ambas, nem mesmo a mó de cima, pois se penhoraria assim a vida”.  Quando a fotografei a primeira vez foi vista diante do meu olhar sempre distorcido  como um meteoro em forma de hóstia de granito caído na Várzea de Casa Forte. Perdeu a sua feição bíblica. Teria esse objeto celeste percorrido a voragem dos milênios, solto no firmamento com sua cauda de fogo solar, passando pelas veredas e altos rochedos dos domínios de Clitôneo, que segundo Homero (- 899 AC), na Odisseia, a um deus se assemelha. Fala-se que Aloisio Magalhães (1927-1982) teria feito dessa pedra mó o ponto germinal e paisagístico do jardim etnográfico do campus Fundaj/Casa Forte, o mais belo jardim privado do Recife, admirado por Burle Marx (1909-1994) quando trazido por Fernando Freyre (1943-2005) para uma sessão do Seminário de Tropicologia, em 1992.

Justiça por Beatriz: pais organizam peregrinação de 720 km para cobrar solução de assassinato
Pessoas que já tiveram covid podem adoecer novamente devido à ômicron
Reino Unido aprova mais um medicamento contra Covid-19
Manhã na Clube: entrevista com o deputado estadual Eriberto Medeiros (PP), presidente da Alepe
Grupo Diario de Pernambuco