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Opinião
O origami, o papel e a dobra

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 13/10/2021 03:00 Atualizado em: 13/10/2021 05:40

Uma enfermidade, pouco mais de um ano atrás, fez-me, buscar, ainda mais, equilíbrio emocional para, em conjunto (esposa, filhos e filhas), retraçar expectativas quanto ao futuro. Não que tivéssemos certezas dele, quando ainda engatinhava no Brasil o redesenho das vidas, após a diminuição das contaminações pela Covid-19. Foi que, junto com a pandemia, um problema grave, na coluna, quase fez minha esposa ter que se submeter a intervenção cirúrgica séria e muito invasiva, sem garantias de êxito.

O trabalho remoto, o bombardeio de informações técnicas e médicas que a mim chegavam em razão de minhas buscas sobre problemas com a coluna vertebral e suas intervenções, além, claro, dos temas mais corriqueiros, aos quais todos nós somos submetidos, nesses tempos de hiper conexão e submissão nossa às redes, consciente e inconscientemente, fizeram de mim um quase zumbi.

Busquei na desconexão com a toxidade das redes sociais, caminho para dar-me prumo e tornar-me autoconsciente sobre o bem e o mal dos fatos com os quais não temos governança. Por acaso, encontrei numa livraria próxima à minha residência, perdido numa prateleira infantil (tinha que ser ali), uma cartilha instrutiva sobre a construção de formas, por dobras em papel; o origami.

Aquilo chamou a minha atenção e fez-me intuir poder auxiliar no meu descanso mental, como uma espécie de “jardinagem” passível de ser praticada, a qualquer hora do dia. Descobri no papel e na arte de fazer vincos, dobras e (re) dobras, algo mágico, tal qual a poesia que se encanta do mesmo papel, com os desenhos das palavras, traçadas de forma mística e, todos os seus possíveis. Dobrar o papel é fazer poesia. É dar forma, ao nada, como uma escultura em mármore, que desenha as janelas do infinito e são abertas para o mundo, no exemplo das “Portas” do pernambucano Jaildo Marinho e suas geometrias, “que não têm pátrias e nem sotaques”.

Entretanto, no origami, uma das formas específicas, por sua simbologia, deu-me lenitivo. O “Tsuru”, pássaro mítico e sagrado do Japão. Conta a lenda japonesa que, se conseguirmos dobrar mil “Tsurus”, os deuses poderão realizar nosso sonho mais profundo. Assim iniciei minha perseguição aos mil, com paciência e esperança. Não os tenho contado, deixo a critério dos Deuses a incumbência, já que deverá ser melhor a surpresa, que a certeza.

Pode ser que aconteça comigo o mesmo da história mais célebre vivida pela criança japonesa, Sadako Sasaki, que tentou os mil “Tsurus” na busca infrutífera pela cura de sua leucemia, bem como do câncer das outras vítimas, como ela, da bomba de Hiroshima (história compartilhada comigo por um casal querido), afinal, mesmo não estando doente, nunca saberemos o nosso tempo, algo que nossa sociedade esquece, somos efêmeros.

Sim, o tempo, como dominá-lo? Consigo apenas, em cada vinco, retraço lúdico com o qual domo as formas, para com elas dar vida ao que projeta alguma ideia de vida, nesse mundo cheio de certezas científicas e políticas. São nelas que tenho depositado a esperança, que vai brotando em cada pássaro nascido, estejam eles ornando alguns vasos de casa, o biombo de minha sala, na Universidade Católica de Pernambuco, ou presenteando a quem me sensibiliza.

Vivemos uma dobra de tempo, incessantemente virada e revirada na vida de tantos, sem qualquer pudor. Ao resolver me desfazer dessas mesmas dobras, no espaço vazio do papel, sob a paciência do olhar em conexão com a fantasia, descubro sempre uma espécie de esperança. Que “Tsurus” batam suas asas, antes mesmo de serem mil. Encontrem pouso em cada pessoa angustiada e, nos seus galhos quebradiços, façam ninho, para assim fiar em cada trama, anjos que nos guiem para onde não sei. Ao menos, com isso, descobri que toda forma se constitui em vida, até as mais efêmeras, descobertas num simples papel, destinado a amarelar-se.

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