Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
Da caneta-tinteiro

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 23/10/2021 03:00 Atualizado em: 23/10/2021 06:25

A estagiária ingressa no gabinete com alguns processos, a fim de obter minha assinatura. Paro a redação de algum voto para atendê-la. Escolho uma caneta-tinteiro, tiro a tampa, ajeitando-a na própria caneta, me pondo a assinar. Um, dois, três, são poucos. Fecho a caneta, guardando-a, gestos lentos e medidos. A estagiária, atenta a todos os meus movimentos, deixa escapar o comentário de não saber que caneta era aquela. Nunca tinha visto  uma caneta-tinteiro na vida. Aproveito, desmonto a caneta, separo parte por parte, mostro como é alimentada pela tinta, tiro um tinteiro da gaveta. A estagiária sai maravilhada. O certo é que a caneta-tinteiro tornou-se uma rara realidade, a caneta esferográfica, quase que totalmente, a jogou, paulatina e praticamente para  os armários de  museu. Sobraram poucas.

No meu tempo de aluno do primário, a caneta esferográfica não existia. Fazia parte do roteiro a aquisição de uma caneta-tinteiro, e, nela, a cuidadosa abertura do nome do seu dono. O relojoeiro errou meu nome. Tentou consertar e piorou. Não sei se diminuiu o preço. No primeiro ano primário o aluno começava a usar a caneta-tinteiro, abandonando, em parte, o lápis. Assim se verificou até a chegada da esferográfica, que, aos poucos, tomou conta do pedaço. Hoje, poucos, bem poucos, conservam sua velha caneta-tinteiro, Parker, ou se sentem encorajados a adquirir uma caneta de marca nova, como o Montblanc.

Eu me incluo no diminuto bloco dos que se mantêm fiéis à caneta-tinteiro. Seja Parker, seja Montblanc, ou outra marca de somenos importância, o certo é que delas tenho um pequeno estoque, e, com elas, largava a assinatura.  De quando em quando, no pleno, quando um servidor vinha com uma resolução para colher a assinatura de todos, me oferecendo uma Bic, se batia com minha educada recusa. Usava a caneta-tinteiro, com o cuidado de não emprestá-la a ninguém. E nesse sentido, tinha uma caneta esferográfica de reserva. Caneta-tinteiro se adapta à mão do dono. É como a mulher: não se empresta. Aí veio o processo eletrônico, fez uma revolução danada, dispensou assinatura por caneta de todo tipo, espécie, marca, cor e origem.  De minha parte,  só saudade ... de encher a carroceria de um caminhão.

Justiça por Beatriz: pais organizam peregrinação de 720 km para cobrar solução de assassinato
Pessoas que já tiveram covid podem adoecer novamente devido à ômicron
Reino Unido aprova mais um medicamento contra Covid-19
Manhã na Clube: entrevista com o deputado estadual Eriberto Medeiros (PP), presidente da Alepe
Grupo Diario de Pernambuco