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Opinião
O assassinato de Dom Expedito pelo padre Hosana

João Alberto Martins Sobral
Jornalista

Publicado em: 24/09/2021 03:00 Atualizado em: 23/09/2021 23:10

Dom Francisco Expedito Lopes nasceu em 1914, no Sítio Jerusalém, em Sobral, no Ceará. Filho de pais muito pobres, foi ordenado padre em Roma, em 1938. Consagrado bispo, foi para a diocese de Oeiras, no Piauí. Em 1965, foi nomeado pelo Vaticano para a Diocese de Garanhuns, com a principal finalidade de resolver problemas em relação a quatro padres, envolvidos em política e com mulheres. Ele conseguiu enquadrar três deles. Menos um.

Padre Hosana de Siqueira e Silva era pároco de Quipapá, município subordinado à Diocese de Garanhuns. Era acusado de cobrar preços exorbitantes para ministrar sacramentos, não cuidar devidamente da paróquia e não fornecer atendimento às escolas, como era costume na época. Mas a acusação mais grave dava conta de um suposto envolvimento amoroso com a prima, Maria José Martins, que trabalhava como empregada doméstica na casa paroquial. Boatos diziam que ela tinha sido obrigada a fazer dois abortos e que só podia se confessar com ele.

Mesmo o padre negando o envolvimento, ela foi desalojada. Mas a cama do padre Hosana não ficou vazia. Foi ocupada por Quitéria Marques, mais jovem, mais bonita, menos grávida. Dom Expedito chamou o padre namorador e pediu para ele despedir Quitéria, mas ele não obedece, alegando que tudo não passava de fofoca das beatas e que havia um complô contra ele arquitetado pelo padre Acácio Rodrigues Alves.

Diante das desobediências, o bispo pediu orientações à Santa Sé sobre como proceder. Recebeu autorização para que ele fosse suspenso de ordens. Ao saber que a decisão seria lida numa rádio da Diocese, padre Hosana tenta convencer padre Acácio, que organizava o programa, a deixá-lo se defender, o que não foi permitido.

Ao saber da recusa, o padre Hosana pegou um trem, depois um táxi e foi para a casa do bispo. Eram 18h do dia 1º de julho de 1957, quando ele bateu na porta. Ao abrir, Dom Expedito levou três tiros. Um no braço, dois no tórax. Depois de oito horas de agonia, ele morre. Ao chegar para dar a extrema-unção, monsenhor José de Anchieta Callou ouviu a última frase de Dom Expedito: “Padre Hosana me matou; perdoe esse pobre sacerdote”, um gesto cristão de misericórdia que deve ter garantido seu lugar no céu.

Com medo, padre Hosana foi se refugiar no Mosteiro de São Bento, onde confessou o assassinato ao prior Dom Bento Martins. No dia seguinte à polícia, que o envia disfarçado para a Casa de Detenção do Recife, para evitar um linchamento pela revolta da população. O caso teve repercussão nacional.

Padre Hosana passou por três julgamentos. Nos dois primeiros, defendido pelos irmãos Brito Alves, foi inocentado tendo como tese a legítima defesa da honra. Já no terceiro, foi condenado a 19 anos de prisão, dos quais cumpriu 11 anos com bom comportamento. Na prisão, vestia bata e celebrava “missas”. Ao ser solto, chegou a visitar o túmulo de Dom Expedito. Em 1968, padre Hosana foi morar no sítio da família próximo ao município de Correntes, onde nasceu. Construiu uma pequena capela, continuou a rezar missas, quase sem fiéis, e ministrar sacramentos, apesar de ter sido excomungado durante a prisão. Em 1997, aos 84 anos, foi brutalmente assassinado, atingido por golpes de madeira na cabeça, crime nunca desvendado.

Está parado, no Vaticano, o processo de canonização de Dom Expedito. Que tem anexado dois milagres comprovados: a de um dentista que acudiu o religioso baleado e teve as calças molhadas pelo sangue. As vestes foram guardadas e depois usadas como relíquia no difícil parto da esposa que corria risco de morte e se salvou. Outros milagres foram atribuídos, o mais famoso o de uma criança alagoana que atribuiu a cura de uma deficiência no pé à interseção do bispo.

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