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Opinião
Meus olhos de Ray-Ban

Rodrigo Pellegrino de Azevedo
Advogado

Publicado em: 16/09/2021 03:00 Atualizado em: 15/09/2021 22:11

Quando a empresa americana Bauch & Lomb, no ano de 1937, a pedido do exército dos EUA lançou os primeiros óculos de sol Ray-Ban, com o objetivo de reduzir a distração dos pilotos enquanto navegavam pelos céus, não imaginava que esses mesmos óculos iriam servir para outras viagens pela Terra. Do primeiro “Aviator”, passando pelo “Shooter”, “Outdoorsman”, “Wayfarer”, “Olimpyan”, “Clubmaster, “Wings, “Round”, “State Street” até o penúltimo lançamento, “Jack”, foram vários estilos que dialogaram com o tempo.

Meu primeiro, foi herdado de meu pai, que, em razão de estar necessitando usar óculos constantemente, deixou-os jogados num canto qualquer de nossa casa, e então, com a adolescência e liberdade sendo postas à minha frente, iniciava-se assim na minha vida, a fase de imitação. Em minha época, não tão distante, pois nasci em 1966, imitávamos o glamour das imagens das revistas e do cinema, pois não havia internet e, muito menos, a televisão era tão sortida de programas que nos fizesse passar horas “zapeando”. Uma dessas imagens que me fez lembrar do aposentado objeto de obstrução do sol, foi a de Jean-Paul Belmondo com seu Ray-Ban “Aviator”. Bingo! O Ray-Ban passou a ser meu!

Apesar de ainda muito grande para meu rosto, foram muitas as vezes que eu o usei até que caiu, num dia qualquer, num passeio sobre a barragem de sobradinho, com o vento rasgando meu rosto. Depois daquele, foram vários outros. Digo mais, os Ray-Ban foram fundamentais para mim. Com eles, podia esconder minha timidez, ao encarar algumas beldades, e com isso enamorar-me de belezas até então incapturáveis. Foram vários meus namoros protegidos pelos Ray-Ban. Através deles a realidade não importava, o que interessava era o que eu podia fazer com ela, inclusive, “romper” com o próprio Jean-Paul Belmondo, ao saber que ele teve um caso com Ursula Andress. Claro que para mim, aquilo somente poderia ter acontecido por causa do Ray-Ban, ela me traiu com ele; sem problemas, dileto, descanse em paz!

Coincidência ou não, chegou-me também, esta semana, uma outra notícia, tão impactante quanto a morte do grande ator rival: a marca Ray-Ban juntara-se ao Facebook de Mark Zuckerberg! Sim! Foi lançado o Ray-Ban Stories. Minha reação foi: como assim? Sabia, claro, que o Google-Glass já fora testado e não dera certo e que seria inevitável termos um “Technological Glasses”, mas logo a Ray-Ban? Sim, meus caros! “Fin de siècle”.

Entendam que não tenho óbice algum ao avanço tecnológico, mas essa junção sepultou anos de glamour! É o fim dos olhares perdidos nos dias ensolarados que, sempre à espreita, enxergam mais pela imaginação que pela captura real do que que é visto. Estão perdidos os fins de tarde que alcançam tantos outros olhares, correspondidos ou não e que, mutuamente se protegem por trás das lentes escuras de meu Ray-Ban.

Tudo passará a ser gravado e publicado instantaneamente, “real time”, nas redes sociais, a hiper-realidade será o que se publica e não mais o que se imagina. Com isso nossos clicks passarão a ser mais valorosos que os suspiros protegidos. Quem vai negar isso, se está tudo publicado?

Como interpretar livremente a vida se ela estará registrada enfadonhamente, o tempo todo, mostrando o que eu olho, sempre, sem saber nada do que se passa comigo? Não Ray-Ban, não deverias ter se juntado a qualquer rede social, pois tu que fizeste inúmeras e indissociáveis histórias, agora, não passarás mais de um reles aplicativo que, juntamente com a Google, já informa a todos, por onde ando, o que vejo, sem sequer me indagar, o que enxergo. Não, não pode, e assim socorro-me do poeta do azul, Carlos Pena Filho, que sempre se protegera, também, com suas lentes, do azul incandescente do Recife, e assim podia amar Olinda, onde, “(...) as claras paisagens dormem (...) no olhar, quando em existência. (...). Diluídas, evaporadas, (...) Só se reúnem na ausência.” e com tudo isso não mais restará a inocência de nosso olhar, já que ninguém vai mais entender que “(...) Os acidentes, na luz, (...) não são, existem por ela. (...) Não há nem pontos ao menos, (...) nem há mar, nem céu, nem velas.”. Nossa imaginação também será cancelada.

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