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Opinião
Por que o Brasil não se sai melhor nas Olimpíadas?

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 02/08/2021 03:00 Atualizado em: 02/08/2021 05:42

Somos a 5ª maior população do mundo e a 13ª economia, ultrapassados que fomos por Canadá, Coréia e Rússia no ano passado. Mas na Olimpíada de Tóquio, estamos na 18ª posição, com 2 ouros, 3 pratas e 5 bronzes até este domingo. Na Olimpíada de 2016 no Rio, com 19 medalhas, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 6 de bronze, ficamos na 13ª posição. Subimos de 33º para 29º lugar no ranking histórico das Olimpíadas. Na de Londres, com 17 medalhas (3 ouros, 5 pratas e 9 bronzes), havíamos ficado na 14º posição. Em Tóquio, até o momento estamos em 18º lugar, com 10 medalhas (2 ouros, 3 pratas e 5 bronzes).

Tradicionalmente, o Brasil tem uma 2ª semana positiva. O que pode acalentar algumas perspectivas de medalhas. Em modalidades como handebol feminino, futebol masculino, salto com vara (Thiago Braz), boxe, (com o potencial para o ouro de Hebert Conceição), vôlei masculino, (já nas 4as. de final), corrida de 400 m com barreiras (Wallinson dos Santos na final), remo (Izaquias Queiroz, que teve 2 pratas e 1 bronze no Rio), vôlei de praia (Ana Patrícia e Rebeca já 4as de final), ginástica de argolas (Arthur Zanetti estreia hoje), e a “medal race” da vela (Martina e Kahena podem conquistar o bi olímpico).

Já comemoramos alguns feitos de atletas que se superaram. Vimos o borbulhar do espírito olímpico nas atitudes e na performance de Rebeca Andrade (ouro e prata), Raissa Leal (prata, a mais nova medalhista brasileira, com 13 anos), Ítalo Ferreira (ouro). Da turma do judô, com dois bronzes, Mayra Aguiar à frente com o seu bronze resgatado na repescagem. De Laura Pigossi e Luisa Stefani, bronze na dupla de vôlei. De Kargnin, bronze no judô. De Kelvin Hoefler, prata no skate. Foi bonito ver o espírito olímpico da ginasta americana Simone Biles, a favorita ao ouro que desistiu das provas e reconheceu não estar em plena saúde mental. Emocionante vê-la esportivamente festejando o ouro de Rebeca. Bonito também ver Bruno Fratus, com o bronze na natação de 50 m, conclamando nosso povo: “Se permitam ser o povo e o país que a gente pode ser”.

Sabemos que os resultados ainda estarão aquém do nosso potencial. Já tivemos algumas expectativas frustradas. Casos de Robert Scheidt na vela laser, que ficou em 8º lugar, embora isso não ofusque suas 5 medalhas em olimpíadas diferentes. Assim como do handebol masculino, eliminado nas classificatórias pela Alemanha. Ou do futebol feminino e da dupla Agatha/Duda no vôlei de praia.  E de Aline Silva, na luta olímpica, ela que já foi vice-campeã mundial.

O espírito olímpico, no entanto, nem sempre se fez presente. Em algumas decisões dos painéis de julgadores, o Brasil parece ter sido prejudicado. Caso da judoca Maria Portela, que foi eliminada depois de ter dado um decisivo “wazari” que deixou de ser pontuado. Caso de Gabriel Medina, eliminado depois de receber, em sua manobra voadora, uma pontuação inferior à idêntica manobra do seu concorrente. Antes o Brasil era sempre visto com simpatia. Talvez pelo nosso espírito leve e aberto. É fato que a imagem internacional do Brasil hoje já não é a mesma. Desgastada pela devastação na Amazônia, pela corrupção dos governantes, pelo fracasso no combate à pandemia, e pela ascensão de um populismo de extrema-direita com pauta contrária às tendências emancipatórias de mulheres, afrodescendentes, gays e outros segmentos discriminados. Muitos se indagam se essa imagem corroída não está atraindo uma má vontade internacional que pode influir nos veredictos dos juízes até mesmo nas Olimpíadas.

Quanto à cobertura televisiva ficam as indagações. O estilo patrioteiro-ufanista é o que mais convém ao público brasileiro? O telespectador espera dos narradores mais informação sobre o esporte em disputa ou mais torcida? Parece que Galvão Bueno anda fazendo escola. Ele que certa vez foi criticado por Nélson Piquet sob o argumento de que falava muito e nada sabia sobre automobilismo. E que, em Tóquio, chegou a ficar de costas para o salto de Rebeca que estava a narrar. Narrar não, porque Galvão prefere gritar e repetir platitudes. Ficamos frustrados quando esperamos que os narradores nos informem sobre regras e contextos. É de se perguntar: por que a Globo, tão competente e eficiente, ainda nos impõe Galvão em tudo que é esporte?

Resta-nos torcer nesta segunda semana. E iniciar um grande debate sobre os problemas estruturais que impedem uma melhor participação do Brasil nas Olimpíadas. Para que superemos essa cultura nacional que nos mantém como potência esportiva menor. Uma cultura que não valoriza o esforço, a disciplina e o equilíbrio emocional. E que exalta o mínimo esforço e a pseudo esperteza. Faltam organizações públicas e privadas que apoiem os atletas. Poderíamos ter uma política de incentivo aos colégios e universidades para maior foco nos esportes. Tudo isso, claro, depende de uma melhor organização, que supere a corrupção e a ineficiência em nossas entidades desportivas.

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