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Opinião
O triunfo da vontade?

Og Marques Fernandes
Ex-repórter do Diario de Pernambuco

Publicado em: 03/08/2021 03:00 Atualizado em: 03/08/2021 05:32

As cenas são verdadeiramente de cinema. O espectador parece encontrar-se no céu. Havia uma estética diferente no ar. O documentário em preto e branco começa com a filmagem das nuvens a partir de um avião. A narrativa da propaganda nazista comandada pela cineasta Leni Riefenstahl registra o maior congresso da agremiação de Hitler, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, entre 4 a 10 de setembro de 1934, em Nuremberg. Ironicamente, a cidade que seria a sede do tribunal encarregado de julgar, onze anos depois, muitos dos militantes captados pelas lentes da produtora cinematográfica.

O filme, chamado O triunfo da vontade, disponível na internet, prossegue na construção da imagem desejada pelo ditador alemão, que conquistara o poder absoluto no ano anterior. O voo conduzia Adolf Hitler para o encontro partidário. As asas da aeronave projetavam sombra lembrando a águia, símbolo adotado pelos novos detentores do poder, juntamente com a suástica. No aeroporto, há muitas pessoas com semblante alegre, a esperar o líder. Segue o baile.

Ovacionado no desembarque, o führer segue em carro aberto até o local do evento sob os olhares de Leni Riefenstahl e de mais 170 pessoas da equipe de produção, uma das maiores registradas pela história da propaganda política. Tudo era filmado, fotografado e até refeito noutro cenário, se a mensagem saísse fora do gosto dos produtores.

Os manuais de divulgação nazista incluíam soldados desfilando em passo de ganso, flâmulas afixadas em casas e edifícios majestosos de estilo neoclássico e crianças oferecendo flores ao líder. Incendeia-se a vaidade do chanceler através da saudação com o braço direito estendido (heil, Hitler!). Os discursos inflamados encontram a melhor e risível tradução em Charles Chaplin, no filme O grande ditador. À noite, paradas com tochas e fogos de artifícios. Leni ainda filmou toda a pompa da Olimpíada de 1936, numa Alemanha quase toda embriagada pela mensagem racista do ditador, noves fora o desapontamento causado nas provas de atletismo pelo negro norte-americano Jesse Owens, que conquistou quatro medalhas de ouro.

Encurto a conversa. As câmaras da cineasta muito contribuíram para que o nazismo obtivesse acolhimento e conduta de manada da população. Com o fim da guerra, Leni ficou presa durante quatro anos, mas conseguiu salvar o pescoço da forca, pois foi considerada mera simpatizante do partido, seduzida também pela mensagem do Adolf.

A criativa produtora de filmes políticos caiu no ostracismo. Tornou-se, então, fotógrafa e mergulhadora. Viveu até 2003, falecendo com 101 anos de idade. Estou longe, muito longe, caríssimo e precioso leitor, de aprofundar uma análise sobre o fato histórico, mas sigo o ensinamento do economista Roberto Campos: é mais inteligente aprender com os exemplos dos outros. Se for para seguir a opinião alheia sem refletir, prefiro morrer do meu próprio veneno.

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