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Opinião
Skate não é, apenas, esporte!

João Evangelista Tude de Melo Neto
Professor de Filosofia (UFRPE/UFPE) e praticante do street skate há 33 anos (campeão Norte/Nordeste na modalidade em 1995)

Publicado em: 27/07/2021 03:00 Atualizado em: 27/07/2021 05:51

No Brasil, o espaço público – sobretudo a rua – é culturalmente considerado como um lugar destinado apenas ao fluxo. “Gente de bem” não costuma se apropriar de maneira, digamos, mais duradoura da rua. No máximo, “passa-se” pela rua, mas “não se fica” na rua. Conforme essa mentalidade – cuja origem poderíamos, talvez, atribuir ao nosso passado escravista; hipótese que não cabe, aqui, discutir –, quem permanece na rua são os comerciantes de baixo estrato, prostitutas, batedores de carteira, golpistas e “moleques”. Mas, deixemos esse assunto para outra oportunidade e passemos a falar de um tema mais “leve” e atual: o skate nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Até o presente momento, a modalidade que mais conquistou medalhas para o Brasil no referido evento esportivo foi o Street Skate! Quem acompanhou as competições, ou apenas deu uma olhada nas imagens veiculadas pelos meios de comunicação, percebeu que as disputas do Street Skate são realizadas em uma pista composta por obstáculos que simulam elementos triviais da arquitetura de centros urbanos – como, por exemplo, corrimãos, escadarias, meios-fios, bancos de praça etc. A origem da prática do street é, portanto, evidente: a rua (street, em inglês). A rua do skatista não é, contudo, a mesma rua dos demais transeuntes. Com efeito, o olhar do “streeteiro” oferece, constantemente, novos significados à paisagem da cidade. Um corrimão, originalmente pensado como apoio para evitar acidentes, ganha uma conotação completamente oposta: transforma-se em obstáculo a ser superado. Num sentido análogo, um banco de praça, por intermédio da perspectiva do skatista, deixa de ser um mero banco de praça e torna-se um objeto aberto a uma infinidade de possibilidades de interpretações. Em outros termos, o praticante do Street Skate cria e recria continuamente “novas cidades”, na mesma cidade em que todos nós vivemos. Isto é, por meio de uma constante reinterpretação do trivial, o Skate transforma a paisagem urbana numa espécie de “novo infinito” de possibilidades. Ora, isso é muito mais do que esporte! É uma visão de mundo multifacetada que desafia, de forma criativa, a ordem do banal, a qual vige em um meio urbano no qual predomina uma monótona significação unitarista!

Provavelmente por caracterizar-se como essa atividade corporal/urbana transgressiva, a prática do Street Skate tem sido, por décadas, marginalizada e, até certo ponto, perseguida. Relegados a guetos, seus praticantes foram estigmatizados e, muitas vezes, reprimidos pelas forças de manutenção da ordem “pública”. É relevante lembrar, por exemplo, que o Skate, nos anos 1980, chegou a ser proibido por lei, em algumas cidades do Brasil. A esse respeito, o caso mais emblemático foi a interdição do Skate na cidade de São Paulo, determinada, em 1988, pelo então prefeito Janio Quadros.

No Recife, apesar de não ter havido uma proibição oficial, a prática vem sendo socialmente descriminada e coibida desde o final dos anos 1970. Os relatos de skatistas que sofreram discriminação, perseguição e, até mesmo, violência policial são abundantes. Oriundos, na sua grande maioria, da classe baixa ou média baixa, muitos tendo a cor de pele mais escura, vestidos de forma pouco convencional e praticando, em pleno espaço público, uma atividade físico-recreativa não usual, os skatistas pernambucanos geraram muito estranhamento em uma sociedade com raízes fortemente arcaicas. Incapazes de grandes resignificações em suas perspectivas, as “pessoas de bem” enquadraram a “novidade” do Street Skate naquela antiga categoria à qual nos referimos no início do texto, a saber, à categoria dos “moleques”.   

Esperamos, contudo, que o prestígio conquistado pelos “moleques” e pelas “molecas” nesses Jogos Olímpicos ajude a nossa sociedade a enxergar o Street Skate a partir de pontos de vista menos preconceituosos. É preciso, portanto, tomar como exemplo a capacidade de resignificação dos próprios streeteiros e compreender que a prática do Skate de Rua vai além de um esporte que conquistou medalhas para o Brasil: skate é uma forma de ver e viver no mundo! E precisa ser respeitada!

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