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Opinião
Palanque à moda antiga

Og Marques Fernandes
Ex-repórter do Diario de Pernambuco

Publicado em: 27/07/2021 03:00 Atualizado em: 27/07/2021 05:51

A Justiça Eleitoral surgiu em 1932, num Brasil que migrava do campo para a cidade. Tempos cantados por Luiz Gonzaga e contados, principalmente, por Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, e Victor Nunes Leal, em Coronelismo, Enxada e Voto. A televisão mal chegara ao país na década de 1950 e não estava disponível a todos os lares.As campanhas políticas mais sofisticadas aconteciam através dos jornais, rádios, cinemas e em discos que tocavam na vitrola da classe média. Campanha, campanha mesmo para o povão, acontecia nos comícios de rua, em cima dos palanques instalados nas praças dos bairros ou no centro da cidade.  

A liturgia do comício, em regra, começava no dia anterior. Um caminhão descarregava os insumos: madeiras, estacas, lâmpadas, cordas, o precário sistema de som e fios que eram estendidos em torno da praça, ligados por um “gato” na rede elétrica para a reprodução do som do microfone nos altofalantes.  Enquanto isso, um carro de som circulava nos arredores e tratava de convidar os moradores das redondezas para o grande evento da noite, azucrinando os ouvidos mais sensíveis. Se o comício fosse no centro da cidade, programava-se o início em torno do pôr-do-sol para apanhar o distinto público que saía do trabalho.

Nos bairros, o falatório começava mais tarde, ocupando o horário depois do jantar, num tempo em que somente havia novelas no rádio. Um locutor contratado pelo candidato tratava de empolgar a massa. Às vezes, o speaker praticava crime hediondo contra o vernáculo, mas se fosse radialista famoso, acompanhado dos atores e atrizes de radionovela, o sucesso do palanque estava garantido: era uma oportunidade da população humilde ver os ídolos em carne e osso.

O palanque aquecia com os discursos dos candidatos menos ilustres. Enquanto isso, distribuíam-se as chapinhas com os ouvintes, papéis recortados com foto e mensagens dos postulantes às eleições. Os candidatos pagavam às pessoas do local para tal serviço.  Tudo deveria se encaminhar para o instante do discurso final, uma apoteose com a fala de um candidato a deputado, senador, prefeito, governador ou, quem sabe, até a presidente da República. Era, porém, no interior desse vasto país do século passado que a mobilização para os comícios sofria temperamentos, para usar uma expressão diferente de censura. O efeito do caciquismo político era mais forte no período das campanhas políticas.

Chefe que permitisse a influência no seu terreiro de adversários, notadamente opositores do executivo, estava destinado a uma concordata política, quase falência moral. Nas minhas andanças, conheci líderes interioranos de mentalidade arejada, verdadeiros empreendedores no meio rural do nordeste, capazes de serem tolerantes com a liberdade dos opositores. Noutros casos, tinham como lema a frase de Millôr Fernandes: “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

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