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Opinião
Ora, direis, ouvir pessoas

Vladimir Souza Carvalho
Membro das Academias Sergipana e Itabaianense de Letras

Publicado em: 24/07/2021 03:00 Atualizado em: 24/07/2021 07:02

A recomendação era de Luiz Rabelo Leite: ouçam as pessoas que baterem às portas do fórum. Eu obedecia. Ouvia. Não ousava decidir sem a força do processo. Mas ouvia, pacientemente. Sempre aparecia um e outro, litígio de marido e mulher, briga de arame de cerca cortado, filho de pai morto residindo fora do seu habitat que, depois de muitos anos, sabia de ação de usucapião do irmão que ficou na propriedade rural, achando que era o juiz que dava de presente ao irmão, que ocupava o imóvel, o direito. Um mesmo me disse que ia a um ente federal, dar queixa a um coronel do Exército, ao que acrescentei que trouxesse a ordem por escrito, que eu colocaria nos autos para cumpri-la. Nunca trouxe. Outro foi se queixar a minha mãe, em Itabaiana, eu tendo de me explicar à autoridade materna superior.  

Um dia, a cabeça fechou. A intervenção da escrivã do termo, que ouvia a conversa do cidadão, me explicou o significado exato da palavra. Senti um branco de repente, e tratei o fato literalmente. O homem se queixava que a filha estava perdida. Inocentemente, perguntei se estava perdida ali, naquela cidade. Estava. Eu, indignado: como explicar uma pessoa estava perdida numa cidade pequena – porque era mesmo, uma praça bem miúda, três ou quatro ruas – como aquela. O pai queixoso é que não me entendeu, e aí, a escrivã, mui educadamente, marcou intervenção para me explicar que perdida significava que tinha sido deflorada. Oh, deuses de todas as latitudes! O termo perdida pousou na minha cabeça imediatamente. Entendi, entendi, e sem dar o braço a torcer, a conversa continuou, não me lembrando mais do seu final.  Decisão é que não tomei, porque, sem o papel do processo, não ousava.

O fato é do século passado. As faculdades de direito apareceram em grande número. Advogado não falta na capital e no interior. Quiçá hoje os juízes não sejam mais acionados por quem busca uma explicação, nem carreguem em torno do nome a aureola da autoridade que o antigamente realçava. Em mim, a lembrança de não ter entendido, de logo, o pai que buscava justiça para a filha perdida. Terminei, eu, também, perdido no branco que tive.

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