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Opinião
O tombamento do mural de Francisco Brennand

Antônio Campos
Advogado, acadêmico da APL e presidente da Fundação Joaquim Nabuco

Publicado em: 26/07/2021 03:00 Atualizado em: 24/07/2021 07:03

A crença de que o mural de Francisco Brennand inspirado na célebre Batalha dos Guararapes poderia ser contemplado com a honraria de bem tombado foi motivadora, desde o início, do meu pedido à Fundarpe, na condição de presidente, à época, do Instituto Maximiano Campos. Fui impelido de tal ação ao saber que o entorno da obra de arte, exposta em faixa urbana degradada do Recife, o seu Centro, estava sendo degradada por  pichações. Não havia por parte de seu proprietário o menor zelo.

Acabo de receber a notícia de que o pedido do Instituto Maximiano Campos teve a acolhida unânime do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico de Pernambuco, órgão vinculado à Fundarpe. Não foi surpresa. Sabia da boa vontade do secretário de Cultura, Gilberto Freyre Neto, do presidente da Fundarpe, Marcelo Canuto, dos que integram o Conselho de Cultura, da competência da arquiteta e conselheira Nazaré Reis, relatora do processo de tombamento.

O ato de tombar tem por finalidade preservar esse bem identificado como de valor cultural, contrapondo-se, inclusive, aos interesses da propriedade privada. Nesse sentido, vejo como de extrema necessidade a requalificação urbana do entorno frontal ao mural, sem a qual o tombamento estaria incompleto. Assim como ficaria incompleto, sob eterno risco de pichamentos e ameaças, se não for construído um arco de proteção desse bem, garantindo necessariamente a sua visibilidade e segurança.

Tenho dito que Francisco Brennand, visionário, idealizou com essa obra de arte uma interação com o Recife nunca antes pensada por outro artista plástico. Uma área recifense formada por um anel urbano pleno de iconicidades, que teria início com as igrejas centenárias, a Faculdade de Direito, o Teatro de Santa Isabel, o Liceu de Artes e Ofícios, o Tribunal de Justiça, o Palácio do Governo, o Jardim do Campo das Princesas e suas esculturas de bronze, o Diario de Pernambuco, de cuja sacada viu-se tombar um jovem mártir pernambucano.

Para mim, tendo sido assunto de uma longa conversa com Brennand, há uma cumplicidade intencional que envolve esse mural com o mapa histórico do Centro do Recife. De um Recife e suas também aspirações regionalistas, quando se podia falar de uma rica iconografia do bairro recifense de Santo Antônio, do chamado anel que tinha como eixo a Pracinha do Diario, centro hoje transformado em abrigo noturno dos sem teto e marginais.

No eixo desse imaginário anel, que parece nascer das águas, na vizinhança e grande entorno do mural de Brennand, tudo tinha início no Recife. E se não partisse dali palanques armados, o povo na rua, o carrilhão do Diario de Pernambuco tocando, não entraria na listagem dos grandes feitos cívicos da cidade que chegou a ser no passado a capital do Nordeste.

Outro desafio a ser enfrentado a partir de agora é a necessidade, urgente, do restauro do mural,. Preocupa-me se, no futuro restauro, qual será  a metodologia de se manter, intactas e preservadas, as cores de que foram compostas originalmente cada unidade plástica desta obra de arte, peça por peça. A começar pelas mais atingidas pelo esgoto aberto, na parte que fica rente ao chão.

São evidentes os traços fortes e os tons vibrantes que resultaram do mais belo mural de Brennand, segundo estudiosos que se debruçaram sobre ele.  O colorido dá conta de uma riqueza, intencional, de expressividade, da singularidade tangível das cores que se harmonizam na intensa agitação dos vultos retratados na dureza do combate, a partir dos seus próprios movimentos como que em busca da fidelidade histórica. Nada é estático, tem um dinamismo febril de ação, de combate, que também inspirou um poema armorial de Ariano Suassuna e outro, de linhagem épica, de César Leal, ambos integrantes do Mural.

Com esse mural, colocado no flanco de uma agência bancária na Rua das Flores, vizinho à igreja devotada ao padroeiro do Recife, Santo Antônio, o meu saudoso amigo Francisco Brennand alcançou o apogeu da sua criação como muralista, além de pintor e ceramista.  Com o  tombamento, o mural tornou-se um monumento.

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