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Opinião
Mitos, verdades e histórias dos Irmãos Evento

João Alberto Martins Sobral
Jornalista

Publicado em: 23/07/2021 07:15 Atualizado em: 23/07/2021 07:17

O Recife perdeu recentemente Joel Datz que, com o irmão Abrahão, formou a dupla Irmãos Evento, que marcou época na nossa cidade. Surgiu de repente e passou a ser uma presença constante nos principais eventos. Inicialmente, surgiram como penetras, sempre juntos, com roupas iguais, simples, muitas vezes vestidas pelo avesso, mas logo começaram a fazer amizades. E entraram entre os colunáveis do meu livro Sociedade Pernambucana.

Passaram a ser convidados para as festas. Numa época chegou a se dizer que sem eles nenhum evento era completo. Tinham anotados todos os eventos que iam. Joel me garantiu terem sido 60 mil em 40 anos, quatro por dia. Com um detalhe: nunca tiveram celular, não assistiam televisão. Sabiam dos eventos pelos jornais, pelo boca a boca. Judeus não ortodoxos, nunca eram vistos com o quipá, um pequeno chapéu usado pelos judeus, um dos símbolos do Judaísmo

O buffet nos eventos sempre estava no alvo deles. Comiam muito. Fui testemunha de uma maldade que fizeram com Abrahão. Sugeriram a ele fazer um sanduíche com wasabi, a raiz forte japonesa verde, sempre ao lado dos pratos japoneses. Ele aceitou, ficando com a boca ardendo. Foi socorrido pela dona da casa de recepções, que o levou para o banheiro. Recuperado, voltou a se serviu normalmente dos outros pratos. Em vez de ficar com raiva riu da brincadeira, de extremo mau gosto. Eles bebiam sempre sucos e refrigerantes, no máximo uma taça de champagne.

A dupla adorava andar a pé, numa resistência impressionante. Altos, brancos, magros e portando barbas longas, aparadas a cada quatro anos, no dia 29 de fevereiro. Uma vez depois do desfile do Galo da Madrugada, atraindo a mídia. Pareciam gêmeos, mas Abrahão era cinco anos mais velho.

Criou-se um folclore em torno deles. Sabia-se que tinham se formado em engenharia civil, sem exercer a  profissão. Aliás, nunca se soube o que eles realmente faziam. Moravam num casarão na Praça Chora Menino, que vivia cheia de mato. Joel, depois da morte do irmão, mudou-se para um apartamento perto. Tinha o hábito de amanhecer sempre na portaria, alegando que era para não perder a hora, gostava de ver o dia nascer, porém, para muitos, era medo de falecer em casa e de ninguém ficar sabendo. Ele infartou em 2015, poucos souberam.

Dizia-se que eles tinham um apartamento na Avenida Boa Viagem. Eram donos da Loja dos Parafusos, na Rua da Palma que, por economia, não tinha energia elétrica, fechava antes de escurecer. Eram conhecidos por não gostar de gastar nada, mesmo tendo posses.

Abrahão morreu em 1995. Recordo de outro fato interessante. O Diario de Pernambuco publicou na primeira página uma foto de Joel com uma pá colocando areia no túmulo do irmão, no cemitério israelita.  Muita gente disse que foi o único dia na vida em que ele trabalhou. Maldade pura, embora, na verdade, nunca se soube de algum trabalho dos irmãos. Depois da morte de Abrahão, Joel passou um tempo afastado, acabou voltando, mas sem conseguir mais o sucesso da dupla. Antes da pandemia, sempre o encontrava na porta da Folha de Pernambuco, lendo o exemplar que ganhava.

Recordo da seção “Meu Tipo Inesquecível” da revista Seleções, em que uma pessoa conhecida assinava um texto na primeira pessoa sobre alguém marcante no seu passado. Joel e Abrahão mereceriam estar naquela seção. Muita gente poderia assinar.

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