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Opinião
As trajetórias do Suplemento Literário do Diario (II)

Marcus Prado
Jornalista

Publicado em: 30/07/2021 03:00 Atualizado em: 30/07/2021 06:08

A partir de 1962, levados por Antônio Camelo, assumimos, César Leal e eu, a editoria do Suplemento, que passou a ser denominado Panorama Literário. Segundo Tércio de Lima Amaral, na sua tese de doutorado em História da Universidade Federal de Pernambuco, na linha de pesquisa Cultura e Memória, “o Diario voltaria a produzir um suplemento literário de caráter mais abrangente em relação a temas fora do eixo da literatura (...)”.

Apoiados por Antônio Camelo, Gladstone Vieira Belo, Joezil Barros foi do nosso empenho realizar um jornalismo cultural sem romper com a tradição noticiosa, configurando-se como espaço de reflexão intelectual. Era um suplemento novo no seu formato gráfico, visualmente enriquecido, nos cercando do que havia de melhor nos meios acadêmicos e da Imprensa cultural do Recife, como colaboradores, dando apoio aos novos talentos, a destacar uma geração inteira de jovens poetas, ensaístas, ficcionistas, além de artistas plásticos, a chamada Geração 65, que nasceu sob o incentivo do Diario. A “Geração 65” veio a chamar-se assim porque começou a ser formada por jovens poetas que nesse ano (1965) publicaram no DP os seus primeiros poemas. Uma Geração tipicamente local, de autores pernambucanos. Foi um acontecimento literário.  Autores que se tornariam referência ainda hoje, dentro e fora de Pernambuco. “O movimento cultural das Edições Pirata, surgido em 1979, diria José Rodrigues de Paiva, consolidaria essa denominação (até como “marca”) que ficou confirmada para a posteridade”.

Nosso trabalho como editores, refletia um momento rico e agitado da produção cultural do Recife. Ali se encontravam não somente resenhas críticas que ultrapassavam as limitações da simples notícia e, muitas vezes, análises mais detidas de fenômenos culturais importantes da contemporaneidade. Por meio dele era possível uma ampla divulgação dos acontecimentos culturais, das manifestações e dos debates presentes na cidade. Além disso, o periódico revelou em suas páginas a transição pela qual o terreno das artes e da literatura passava na época, sendo o próprio Suplemento produto dessas mudanças. Dessa experiência editorial, (privilegiada pelo talento criativo de Zé Maria, o diagramador), nasceria um ciclo semanal de palestras culturais, na capital e no Interior, durante vários anos, com a colaboração da UFPE (reitorado de Mozart Neves) e do professor Roberto Pereira.

César Leal, o “pai” da Geração 65, além de carisma e conhecedor do fenômeno da criação literária, fundador do Curso de Mestrado em Linguística da UFPE, tinha o dom de descobrir em cada autor iniciante o que podia vir a ser. Nisso era infalível. O professor, crítico literário e poeta José Rodrigues de Paiva, um dos maiores dessa Geração, no livro: Geração 65: 50 anos, nos conta, em detalhes, o papel aglutinador do Diario, o perfil literário desse grupo de jovens autores, e expõe de forma cabal um tempo pernambucano que franqueia o alento de perenidade.

Na verdade, tudo isso acabou porque o custo de produção, impressão dos suplementos, não tinha como ser coberto pela receita publicitária que deixou de gerar nesses tempos de barbárie e descultura. E a resposta (infalível, talvez para sempre) está na popularização da Internet e na expansão do ciberespaço. O mundo está migrando, inchado, “abestalhado” e orgulhoso, para a web. Prefiro estar com Umberto Eco, no seu pronunciamento a El País, quando o mestre disse que “a Internet pode ter tomado o lugar do mau jornalismo…Basta pensar nos sucessos que faz qualquer página da web que fale de complôs ou invente histórias absurdas: tem um acompanhamento incrível, de internautas e de pessoas importantes que as levam a sério”. A literatura, as resenhas literárias, os ensaios críticos, o espaço aberto aos grandes pintores, até a crônica sobre Teatro e Óperas (que já tivemos no velho DP e marcaram época), os manifestos e a publicação de poemas, textos de ficção, grandes reportagens e entrevistas, foram aos poucos perdendo espaço – e importância –  não só no Diario como nos grandes jornais brasileiros.

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