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Opinião
O Peru dos labirintos e das veias abertas

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 14/06/2021 03:00 Atualizado em: 14/06/2021 04:38

Pedro Castillo é um professor sindicalista, filho de camponeses analfabetos, que vendia picolé nas ruas para conseguir estudar. Nasceu na província de Cajamarca. Onde, em 1532, Pizarro comandou o Massacre de Cajamar e conquistou o fabuloso Império Inca ao executar o imperador Atahualpa. De lá pra cá, a história do Peru tem sido marcada por profundas divisões. Os povos originários permaneceram na pobreza e exclusão. A elite crioula, descendente dos conquistadores espanhóis, concentrou poder, minas e terras que não beneficiaram o povo nem mesmo depois que San Martín proclamou a independência do Peru em 1821. Nem quando a independência foi consumada pela vitória do general Sucre, um dos comandantes do Exército de Simon Bolívar, na batalha de Ayacucho, em 1824. O Peru foi das regiões mais importantes para a colonização espanhola. A cidade de Lima foi fundada por Pizarro ao mesmo tempo que os portugueses fundavam Olinda e Recife, em 1535. Tinha jurisdição sobre toda a América espanhola, capital do vice-reinado. Por onde passavam as riquezas coloniais com destino a Sevilha. Foi em Lima que surgiu a primeira universidade das Américas: a Universidad Nacional Mayor de San Marcos (UNMSM), criada pelo imperador Carlos V em 1551.

O país é emblemático da triste sina da nossa América Latina. Com suas veias abertas e seus labirintos que ainda hoje não conduziram seus povos a uma civilização digna desse nome. Uma nação polarizada, fragmentada e submetida a populismos que lhe aprisionaram no atraso. Como o Brasil e o México, outros grandes do continente. Essa sina de desigualdades e injustiças sociais o Peru não superou nem mesmo quando começou a despontar seu potencial entre 2001 e 2016. Quando sua economia cresceu a uma média anual de 5,6%. E quando registrou redução da quantidade de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza (de 60% para 21% da população). Não obstante, as desigualdades ampliaram-se. Quando estava na OEA, fui várias vezes ao Peru. Vi a modernidade e a riqueza nas ruas do bairro Miraflores e nos restaurantes da excelente culinária de Lima. Mas também vimos, Patrícia e eu, um pouco do Peru profundo. Ao viajar pelo interior e conversar com os descendentes empobrecidos dos antigos donos da terra expropriada pelo colonizador. Pedro Castillo, cuja apertada vitória está sendo questionada por sua adversária Keiko Fujimoro, representa esse povo originário marginalizado. “Venho desse Peru profundo, de uma família modesta”, como se define. Nas serras andinas e áreas rurais ele obteve 70%, 80% e até 90% dos votos. Os observadores internacionais, como a OEA, já atestaram a regularidade do pleito. O reexame das atas e dos recursos pode adiar a proclamação definitiva dos resultados por até duas semanas. O que exacerbará as antigas divisões.

Se confirmada a vitória de Castillo, ele vai ter dificuldades para satisfazer expectativas como a de Max Aguilar, que desceu das serras andinas, desde Chimbote, em longa viagem de ônibus até Lima, para lutar pelo respeito à vontade das urnas. “A direita já teve tempo de sobra para mostrar que as coisas podem melhorar. E nada fez. Por isso, nós, o povo, estamos dizendo não. Basta. Estamos apostando na mudança. Temos muita confiança no professor Castillo”.

O problema é que Castillo, sem maioria no Parlamento, vai ter dificuldades adicionais para governar um Peru dividido. Imerso numa crise política em que vários ex-presidentes foram parar na cadeia. Inclusive sua opositora, que já esteve presa e responde a processo por recebimento de propina da Odebrecht que lhe pode render uma pena de até 30 anos. Um país que teve quatro presidentes nos últimos cinco anos. A fragmentação de 18 candidatos fez com que Castillo fosse ao 2º turno com apenas 15% dos votos. Entre as duas candidaturas finais existe um expressivo contingente de eleitores mais moderados que precisarão ser ouvidos. Por isso, Castillo vai precisar ajustar algumas das suas propostas mais polêmicas. O desafio vai ser inaugurar novas práticas para cumprir a promessa de “não mais pobres em um país rico”. Para implementar políticas que resgatem a dívida social para com o Peru profundo que lhe conduziu à presidência. Mas com políticas econômicas realistas que não desorganizem uma economia que vinha se destacando na região. Um futuro em aberto. Que pode viabilizar um encontro do Estado com o seu povo tradicionalmente excluído. Mas que também pode representar um fracasso que aprofundaria ainda mais a cisão de uma sociedade já tão polarizada.

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