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Opinião
Frente ampla na prática?

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 21/06/2021 03:00 Atualizado em: 21/06/2021 05:58

Uns falam de candidatura única de centro. Ou de um polo democrático. Esses alegam que as candidaturas de Bolsonaro e Lula representariam dois extremos a evitar. Equivocam-se na equiparação porque os dois governos Lula não foram de extremo. Aliás, seus governos devem ser criticados por não terem realizado reformas estruturantes no estado, na economia e na política. Mas Lula não governou atacando as instituições como fazem todos os extremistas. Outros falam de uma candidatura única em uma frente ampla de todos os que se opõem ao bolsonarismo. Incluindo até aqueles que nele votaram mas estão arrependidos. Uma frente ampla que pudesse escolher um único candidato para gerar um governo com programa mínimo, sem reeleição, composto por forças heterogêneas convergindo na reafirmação do jogo democrático. Algo análogo ao que se produziu em Israel para se livrar de Benjamin Netanyahu. A esse projeto serviria um programa mínimo de pacificação nacional com alguns objetivos estratégicos.

Cada um desses dois possíveis roteiros esbarra nas dificuldades práticas. Algumas candidaturas, como as de Lula, Ciro e Dória (caso este confirme seu favoritismo na prévia do PSDB), parecem irremovíveis. Ou pelo menos incapazes de unificar toda a oposição a Bolsonaro. Acumularam desgastes em setores onde não penetram, mas que precisariam estar no projeto de frente ampla. Sem falar nas rivalidades, ressentimentos e ambições pessoais. Nem nas diferenças aparentemente incontornáveis em muitos outros temas que não sejam a aversão ao projeto autocrático de extrema-direita. Nem nos interesses das burocracias partidárias e dos candidatos aos governos e aos parlamentos em 2022. Outras, no chamado centro ou polo democrático, não parecem promissoras na expectativa de juntar todos os que não concordam com as duas que hoje lideram as pesquisas.

Mas nem sempre prestamos atenção ao que está ocorrendo na prática no campo dos que combatem o Bolsonarismo. Ainda que inspirados por concepções bem distintas. Mesmo com adesões a diferentes candidaturas de oposição, já se produziram alguns pontos de unidade e de diálogo. Como na estratégia preferida para combater a pandemia, com apoio ao distanciamento social, ao uso da máscara e à vacinação rápida e ampla. Como na rejeição à insânia negacionista de Bolsonaro e à sua irresponsável estratégia de imunidade de rebanho já provada na CPI da Covid. Como no reconhecimento de que as instituições democráticas precisam ser reformadas e fortalecidas. Como na proposta, que prevaleceu no Congresso Nacional, de um auxílio-emergencial amplo e de valor significativo. 

E, finalmente, como na participação ou endosso às manifestações do sábado 19/06. Essa ‘frente ampla na prática’ é necessária para enfrentar dois desafios que podem determinar o futuro da nação como país que aspira ao desenvolvimento sustentável com democracia e justiça social.

O primeiro desafio é o de criar uma ampla coalisão capaz de dissuadir ou resistir à ameaça de ruptura institucional que já se descortina caso Bolsonaro perca nas urnas em 2022.E para que os setores profissionais do Exército e das PMs não embarquem na aventura de apoiar os que não queiram acatar os resultados das urnas.

O segundo desafio é o de fomentar uma coesão social forte o suficiente para que, em eventual 2º turno, os eleitores dos candidatos que a ele não passarem possam expressar nas urnas a vontade dos 70% que não gostariam de mais quatro anos de um governo com os conhecidos defeitos do atual. Mormente porque a reeleição de Bolsonaro arriscaria colocar o país na senda vista em países como Hungria e Polônia. Em que governos autocráticos, mesmo sem precisar de um jeep e um soldado, lograram instalar regimes autoritários a partir da erosão gradual das instituições democráticas pela reforma e controle do Parlamento e do Judiciário.

Para viabilizar essa ‘frente ampla na prática’, urge desarmar espíritos. Precisamos, todos do campo democrático, perdoarmo-nos mutuamente. Superar as velhas feridas da corrupção, do impeachment e da Lava-Jato. Admitir que cada uma dessas feridas, além de erros intrínsecos, teve excessos e manipulações. Fazer autocrítica sincera.

Está em jogo a causa de uma grande aliança pela democracia. Esperemos que as lideranças partidárias emulem os exemplos de Ulysses, Tancredo, Arraes, Brizola, Sarney e Marco Maciel. Que souberam dialogar sem perder a identidade. Guiados pelos objetivos maiores da nação. Seria pedir muito aos atuais líderes?

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