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Opinião
Para superar a meritocracia

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 17/05/2021 03:00 Atualizado em: 17/05/2021 04:23

Em seu polêmico livro sobre a meritocracia como argumento de justiça (The Tiranny of Merit, 2020), o professor Michael Sandel, da Universidade Harvard, faz uma incursão em suas origens. Desde Santo Agostinho, Lutero, Calvino e Weber até os liberais progressistas americanos, Obama à frente. Mostrando como a sociedade ocidental de hoje está prisioneira da meritocracia, ele examina os efeitos do argumento. E levanta problemas que ajudam a entender a captura, pelos movimentos populistas, dos ressentimentos que ela gera entre os que não ascendem às melhores posições sociais.  Sandel relembra-nos que esse acento na ascensão pelo “mérito individual” tem alguns problemas graves. A promessa é de que, pelo talento e esforço pessoal, qualquer um poderia alcançar a prosperidade e a boa vida. Não se toca nas desigualdades das posições a serem disputadas. Quando a realidade é que as desigualdades cresceram com a financialização da sociedade globalizada e tecnocrática. As recompensas ficaram concentradas nos que dispõem de conexões (“networking”) e têm oportunidades para adquirir as credenciais dos títulos acadêmicos e tecnocráticos. Mas nada se propõe para valorizar as outras atividades laborais. Sem as quais aquelas são inviáveis. A pandemia expôs essa obviedade. Quem quis enxergar viu o quanto as elites meritocráticas dependem de ocupações hoje não valorizadas. Entregadores de aplicativos, motoristas de ônibus, taxi e uber, cozinheiros, profissionais de saúde, trabalhadores da limpeza urbana, porteiros, policiais, professores, prestadores de serviços e operários arriscaram-se para viabilizar a vida dos que puderam ficar em casa.

A saída, para Sandel, é a redefinição do que entendemos como sucesso. Nem todos podem estar no mundo das finanças ou das tecnologias de ponta. Alguns progressistas iludem-se com os projetos de ascensão individual a serem mitigados com medidas de justiça distributiva. Para Sandel, esse debate sobre justiça distributiva deveria ser deslocado para reforçar o elemento justiça contributiva. Que se valorizem os que fazem, que produzem os serviços e bens de que todos necessitamos. Resgatar a dignidade do trabalho. Em qualquer de suas modalidades que não sejam negativas para o bem estar coletivo. Ressignificar o trabalho manual, o menos sofisticado, o menos lucrativo. Para que as pessoas que o exercem não continuem a se sentir excluídas e abandonadas até por forças políticas que dizem falar em seu nome. Que sejam reconhecidas e resgatem a autoestima. Que possam se engajar nos processos de deliberação da polis, na tradição do republicanismo cívico que vem desde Maquiavel. Trata-se de desenvolver uma nova concepção do bem-comum. Onde se saliente a mútua dependência que todos temos de outras pessoas e coletividades para realizar nossos projetos e vocações. Redefinições que podem resgatar o reconhecimento e a autoestima dos que não puderam adquirir as “credenciais” da sociedade meritocrática. A superação da meritocracia pode atingir vários objetivos positivos simultaneamente. Pode criar uma sociedade menos desigual. Com mais possibilidades de florescimento em muitas outras atividades que não as poucas hoje valorizadas. Pode criar um ambiente mais democrático, com mais participação na deliberação sobre os destinos coletivos. Pode incorporar o talento de muitos que hoje se encontram desestimulados, sem autoestima e sem reconhecimento social. Pode diminuir a força atrativa do populismo xenófobo de direita. Em suma, pode criar sociedades mais felizes. Até porque nem todos aspiram aos bilhões das altas finanças e similares. Quem nunca se deparou com um milionário ou bilionário triste?

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