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Opinião
Gilberto Freyre, Robert Lucas Jr e eu

Alexandre Rands Barros
Economista

Publicado em: 10/05/2021 03:00 Atualizado em: 10/05/2021 07:01

No livro Roots of Brazilian Relative Economic Backwardness (New York: Academic Press, 2016), apresentei estimativas do PIB per capita no Brasil e nos E.U.A. no século 19 utilizando a hipótese de que as pessoas que migraram para esses países tendiam a reproduzir nas suas rendas individuais o que seria o PIB per capita nos seus países de origem ao longo de suas vidas e de seus descendentes. Para justificar tal ideia, recorri à hipótese de expectativas racionais, popularizada em Economia pelo ganhador do prêmio Nobel, Robert Lucas Jr. Além dessa hipótese, esse método supõe que os emigrantes possuíam distribuição de capital humano semelhante aos residentes nos países de origem, tendendo a ser capazes de gerar a renda que este poderia proporcionar. Os dados existentes para anos específicos mostraram que os resultados alcançados com tal método geravam uma aproximação muito boa dos valores efetivos, sobretudo para os E.U.A., que possuíam dados de imigração por ano e por país de origem. Vale lembrar que no século 19, o capital humano era principalmente transmitido nas famílias.

Gilberto Freyre, em seu livro Casa Grande & Senzala, apresenta a hipótese de que o padrão de vida entre os portugueses vindos para o Brasil só se elevou aos padrões encontrados na metrópole quando as mulheres portuguesas começaram também a imigrar. Segundo ele, enquanto imigrantes solitários, os homens tendiam a morar com índias ou africanas e a deteriorar seus padrões de vida para os níveis estabelecidos por elas. Com isso, seus filhos eram criados com um nível de organização intelectual e hábitos culturais comuns a essas outras etnias, à época. Nessa hipótese, as mulheres definiam o padrão de vida e capital humano formado pelos filhos. Testes empíricos com dados dos últimos trinta anos, contudo, confirmam a hipótese de que as mães são as principais responsáveis pela transmissão de capital humano para as novas gerações, mesmo recentemente.

Os primeiros resultados do Projeto DNA Brasil mostram que a população brasileira atual é formada por 36% e 34% de linhagem materna de africanos e brasileiros nativos, respectivamente. Europeus responderiam apenas por 14% do genoma brasileiro a partir de linhagem materna. Na linhagem paterna, por outro lado, 75% têm origem europeia e apenas 14,5% e 0,5% são de DNA africano e nativos, respectivamente. Ou seja, tivemos mais imigrantes europeus masculinos e fomos formados principalmente por acasalamentos decorrentes de relações de poder masculino (estupros, etc.). Se considerarmos conjuntamente as hipóteses de Gilberto Freyre, expectativas racionais, e as que desenvolvi no livro supracitado, pode se fazer estimativas para o PIB per capita brasileiro em anos recentes a partir das proporções fornecidas pelo Projeto DNA Brasil e dados do Banco Mundial. No período de 1990 a 2019, os desvios absolutos dessa previsão com hereditariedade feminina para os números reais para nosso país atingem uma média 7,1% do valor do PIB per capita brasileiro. Se a proporção da hereditariedade masculina for utilizada, a média dos desvios absolutos atinge 141%. Ou seja, a capacidade de prever o PIB per capita a partir da composição étnica da hereditariedade feminina ainda é razoável no Brasil.

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