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Opinião
Fique em casa: mas leia

Luzilá Gonçalves Ferreira
Membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicado em: 17/05/2021 03:00 Atualizado em: 17/05/2021 04:24

Ao longo do ano,  andaram nos enganando: disseram, fique em casa, é por pouco tempo... é só até maio... e depois até uns meses, e eis que há mais de um ano a gente fica em casa, ou não. Desobedece. Usa máscara. Depois toma vacina (alguns tomam), se sente mais protegido, ousa sair um pouco, e aí dizem de novo, fique em casa. Saudade dos amigos, dos parentes. Inda bem que o computador está aí, e as bibliotecas particulares, os livros que se pode adquirir pela internet. Fora os filmes pela televisão (haja abacaxis) quando, entretanto, felizmente se desenterram coisas ótimas. E raras. Outro dia vi Casablanca, Ingrid Bergman dando show de beleza e desempenho. Cidadão Kane, Orson Welles mocinho. Revi quase todos os Charles Chaplin. Morangos Silvestres e um longo documentário sobre o genial Ingmar Bergman. E pude ver alguns filmes recentes. De dar dó, ver belezas inigualáveis de outrora, Sophia Loren e Catherine Deneuve, ainda com “beaux restes”, como dizem os franceses. E têm minha idade... Basta. Como na tragédia antiga: é preciso sofrer para entender. Enfim.

Felizmente há os livros que se esqueceu. Poesia, romance, História. Mas, coisa estranha, nunca tinha reparado como se fala de tempo que passa, de morte. Jorge Luis Borges: ‘Morir es una costumbre/ que suele tener la gente” . Mauro Mota: “Correm as águas, correm sem que eu possa vê-las, e ouvi-las possa.. Nas águas vai-se embora, submerso o tempo sobre o qual navega sempre (O Navegante).Marguerite Duras escreve um livro inteiro com este título: A dor. Memórias sobre amor e resistência durante a guerra de 39-45.

Como muita gente, encontro nas estantes obras esquecidas, nunca lidas, e que fazem rir, ô milagre. Um exemplo, não sei se já falei nisto em algum espaço deste Opinião. É que ando tão esquecida, como  muitos amigos, que troco os dias da semana, as datas. É aquela peça de teatro, escrita por um brasileiro, que foi morrer na fogueira, da Inquisição, em Portugal, acusado de ser judeu. Chama-se Antonio José, e sua comédia Guerras de Alecrim e Manjerona, era uma das grandes admirações de gente que entende, como Ariano e Hermilo. Ele escrevia para fazer rir os humilhados e ofendidos dos altos de Lisboa. Culto, havia lido os clássicos da comédia grega e o francês Molière. Dou só um exemplo: uma criada e um criado querendo imitar os patrões, gente que finge ser rica. Cito de memória. Ele, apaixonado: “Amo-vos minha senhora. Queria beijar-vos os pés”. E ela: “Não o façais, pois os tenho fétidos” (uma crítica velada aos novos ricos burgueses e à falta de água em Lisboa à época). Pois felizmente, há quem confie no poder da leitura, da palavra, que pode transformar as coisas. Como Ferreira Gullar: “Ora, eu sei muito bem que a poesia não muda (logo) o mundo. Mas e, por isso mesmo, que se faz poesia: porque falta alegria. E quando há alegria se quer mais alegria.”

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