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Opinião
Arquitetura escravocrata

Roberto Ghione
Arquiteto, presidente do IAB-PE entre 2017/19

Publicado em: 13/05/2021 03:00 Atualizado em: 13/05/2021 06:02

O Brasil real é bem diferente do legal. Sua legislação, se fosse efetivamente implementada, o colocaria na vanguarda de muitos assuntos. Porém, a inércia, os vícios e os interesses dominantes persistem comportamentos degradantes, que atrelam o país ao atraso e subdesenvolvimento.

133 anos após a abolição da escravatura, ela perdura na consciência de ricos e pobres do Brasil atual, manifestando-se cruamente na arquitetura e no urbanismo de suas cidades anti-urbanas.

O país-continente celeiro do mundo, de paisagens exuberantes, de riquíssima diversidade cultural, de fatos épicos como a construção de Brasília, não consegue apagar sua marca internacional: a da desigualdade retratada nas imagens das principais cidades, reflexo de persistentes atitudes escravocratas, que de tempos em tempos, nos oferecem demonstrações inequívocas dessa cultura degradante, perversa e desumana, como a recente operação desastrada que culminou no massacre do Jacarezinho (celebrado por algumas autoridades).

Sem políticas destinadas a superá-la, a escravatura se manifesta nas urbanizações irregulares, nos cárceres lotados, na expansão das milícias e do narcotráfico, na degradação da educação e da saúde pública, e nos inúmeros comportamentos que dividem o país em cidadãos de primeira, de segunda e de última categoria, provocando exclusão, marginalidade e violência.

Mas a escravatura também se constrói cotidianamente nos condomínios fechados, nos edifícios defensivos e excludentes, nos shoppings centers, nos muros e guaritas que desfiguram nossas paisagens urbanas, no descaso com o espaço público, nos quartos de empregada “legalizados” como depósitos e nas inúmeras atuações que caracterizam a prática da arquitetura como profissão elitizada, alheias às necessidades da maioria das pessoas e do compromisso social.

Arquitetos e Urbanistas que projetam os edifícios da chamada “cidade formal” (registrados em Conselho e conformes com as leis vigentes) viram reféns e, de certa forma, cúmplices do sistema que perdura a escravidão.

Leis progressistas, como a 11.888, que implanta desde 2008 a Assistência Técnica pública e gratuita a famílias de baixa renda para o projeto e construção de habitação de interesse social, são desconhecidas ou “esquecidas” pela maioria dos gestores públicos.

A desigualdade envergonha e degrada. Ela é gritante, presente no cotidiano de todos os brasileiros. Tão presente e gritante que vira invisível e emudecida perante às consciências anestesiadas de quem habita a normalidade de um contexto selvagem. Enquanto ela não for superada através de políticas solidárias e integradoras, que coloquem o país no rumo da civilidade, o Brasil continuará ancorado permanentemente nos tempos anteriores a 13 de maio de 1888.

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