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Opinião
O dilema do lockdown

Moacir Veloso
Advogado

Publicado em: 07/04/2021 03:00 Atualizado em: 07/04/2021 06:04

Ambrósio é um homem de 66 anos, semianalfabeto casado, pai de quatro filhos, morador de favela, que tira o seu sustento vendendo batatas doces, em frente a um mercado público de um dos bairros desta capital. Sai de casa todos os dias às 5 horas da manhã e às 6h já está no batente. Sentado em um banco de madeira, atende aos seus clientes até as 18h, pessoas de classe média, que frequentam e fazem compras no mercado e no seu entorno.

Com o advento da pandemia, a atividade econômica de milhares de vendedores informais foi severamente prejudicada, por força de um decreto estadual que determinou o fechamento do comércio em geral, com exceção das atividades essenciais, tais como supermercados, farmácias, padarias, oficinas de automóveis, etc..., bem como o isolamento social e o malsinado lockdown. Nesse contexto, Ambrósio, que chegava a ganhar  dois salários mínimos por  mês, do dia para a noite, com o fechamento do mercado, ficou sem renda alguma.

Como se isso não bastasse, sua família de seis pessoas apinhadas numa moradia de três quartos, iniciou o ciclo da fome, efeito colateral da Covid-19, que materializa o martírio de milhões de brasileiros. Eis o dilema posto: Ambrósio pensou: como é que me proíbem de sair de casa e de trabalhar, de tirar meu sustento, meu pão de cada dia para me proteger? Que proteção é essa que me deixa na miséria?

Se é certo que o lockdown tem obtido bons resultados em relação ao coronavírus, não é menos certo que poderá também provocar o caos generalizado em todo país, com milhões de desempregados informais e os que foram demitidos, saindo às ruas para protestar e porque não saquear? Isso sem considerar o aumento dos crimes contra o patrimônio decorrentes da pandemia, roubos, furtos, etc..., E o pior: há uma rede de agiotas colombianos atuando nesta capital, emprestando pequenas quantias, com pagamento diário do principal e dos juros, para aumentar o infortúnio dos sem renda. 

O fundamento dessas medidas radicais é o combate à disseminação do coronavírus que já provocou a morte de mais 332 mil pessoas no país, sendo 12,3 mil em Pernambuco. Como se isso não bastasse, temos o outro lado da moeda: como consequência do fechamento do comércio, da indústria e de setores de atividades  atividades afins, milhões de trabalhadores ficaram sem emprego e passaram a integrar o contingente de 13 milhões de desempregados já existente há mais de dois anos no pais.

Diante do caos econômico e sanitário instalado em 2020, o governo federal criou o Auxílio Emergencial, no valor de R$ 600,00, que foi pago mensalmente às milhares de pessoas necessitadas, entre agosto e novembro de 2020. Essa ação assistencial teve um efeito positivo com a injeção de R$ 147 bilhões na já cambaleante economia nacional. Neste ano, a situação é gravíssima e a pandemia não dá sinais de estar perdendo a força. Pelo contrário, o número de infectados e de óbitos está crescendo assustadoramente.

Ao que tudo indica, as medidas restritivas adotadas pelos governos, na maioria dos estados, não estão obtendo resultados positivos, por força da falta de educação sanitária de boa parte da população, além da desinformação que prejudica o combate frontal à  Covid-19. Por outro lado, a aplicação desse remédio amargo que é o lockdown, está jogando na rua da amargura milhões de famílias que estão em situação de miserabilidade, sem ter o que fazer e o que comer.

A perspectiva é sombria, tanto a curto como a médio prazo. O morticínio, o desemprego e a fome só fazem aumentar, sendo muito difícil até para os futurólogos de plantão, arriscar qualquer previsão para quando voltaremos à normalidade. Quem viver, verá. O único remédio eficaz para a Covid-19 está em andamento: a vacinação. É nesta tarefa hercúlea, a imunização de toda população brasileira, que devem se concentrar todos os esforços das autoridades. Enquanto isso, vamos levando a vida com a morte à espreita. Afinal o mortífero vírus está no ar que respiramos; como é impossível viver sem respirar, resta-nos pedir proteção à Deus. Seja o que Êle quiser.

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