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Opinião
Economia do Cuidado precisa ser valorizada e compartilhada

Isabella de Roldão
Vice-prefeita do Recife

Publicado em: 06/03/2021 03:00 Atualizado em: 06/03/2021 06:20

Neste mês de março, dedicado à reflexão sobre os direitos das mulheres, é fato que há conquistas a celebrar. Recife tem, afinal, a primeira vice-prefeita da sua história e um secretariado com inédita paridade de gênero na gestão municipal. Claro que nada nos foi concedido ao acaso. Os avanços são resultado de muita luta por representatividade e reconhecimento de nossas competências. O caminho, no entanto, ainda é longo para atingirmos a real igualdade, tanto no espaço público quanto no privado. E ele passa necessariamente pela visibilização e valorização da Economia do Cuidado.

Toda pessoa adulta que trabalha e produz riquezas para a sociedade precisou de alguém que garantisse a sua sobrevivência desde o nascimento, que a educasse e desse o suporte necessário ao seu desenvolvimento. Isso vai da amamentação ao serviço doméstico (cozinhar, lavar, passar, limpar… todos os dias, o tempo todo). Já parou para pensar sobre o valor gerado por essas atividades? O equivalente a 11% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, superior a qualquer indústria e duas vezes mais que todo o setor agropecuário, segundo cálculo da ONG Think Olga, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE. No mundo, a cifra chega a US$ 10,8 trilhões, inferior apenas aos PIBs de quatro dos países mais desenvolvidos do globo, de acordo com estudo da Oxfam.

A economia tradicional simplesmente não teria meios de se manter se não fosse subsidiada pela Economia do Cuidado, que ainda envolve a responsabilidade com doentes, idosos e pessoas com deficiência.

Acontece que cabe majoritariamente às mulheres (mães, chefes de família, empregadas, babás e cuidadoras) esse trabalho, atribuído a elas de forma naturalizada, praticamente uma incumbência carimbada junto com o sexo na certidão de nascimento. Como tal, não remunerado ou mal pago.

Agora percebam o círculo perverso: mulheres gastam, em média, mais de 61 horas por semana em tarefas sem remuneração no Brasil. Quanto mais tempo dedicam a atividades domésticas e de cuidado com a família, menos horas e disposição têm para estudar, investir na carreira e participar da vida social e política. Resta à maioria os cargos de menor qualificação e os mais baixos salários. Consequentemente, a presença nos espaços de poder também é restrita. Ao mesmo tempo, são as mulheres que proporcionam aos homens as condições para que eles, sim, apresentem-se na esfera pública com todo o seu potencial. Até quando vamos compactuar com um sistema tão despudoradamente injusto?

A pandemia trouxe à tona a ponta do iceberg, quando amplificou as desigualdades, ao punir mais severamente as mulheres, com o aumento das demandas dentro do lar e do desemprego formal.

Precisamos reconhecer a Economia do Cuidado dentro do sistema produtivo, trazê-la para o centro das discussões sobre equidade de gênero e assumi-la como tarefa de todas e de todos. Só assim será possível garantir às nossas meninas e mulheres a oportunidade de serem o que elas quiserem, porque o cuidar e o trabalho doméstico não são intrínsecos ao nosso sexo.

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