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Opinião
Fuga arrependida

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. doutor em Direito (PHD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 24/02/2021 08:20 Atualizado em:

Acredito que é de Jorge Luis Borges (1899-1986) a seguinte frase: “Um livro que não merece ser relido não merecia ter sido lido”. E se a dita cuja não é dele, fica sendo. É mais que uma honra ter uma frase minha atribuída ao autor de Ficciones (1944) e O Aleph (1949).

Bom, há livros que li, reli e lerei novamente. Civilização (1969), de Kenneth Clark (1903-1983), A era da incerteza (1977), de John Kenneth Galbraith (1908-2006), O nome da rosa (1980), de Umberto Eco (1932-2016), Amor a Roma (1982), de Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), e O século dos intelectuais (1997), de Michel Winock (1937-), são alguns títulos que me vêm logo à cabeça. Eles formam a minha “Biblioteca de Babel”, aquela biblioteca “ilimitada e periódica”, na qual, “se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem)”, para usar das palavras do grande argentino, duvidosamente citado no início deste riscado. Essas obras contêm mil e uma realidades, ainda escondidas e à minha espera para decifrá-las.

Mas há também livros que simplesmente não consegui ler. E olhem que eram maravilhas da literatura. De dois deles eu me recordo muito bem. O jogo das contas de vidro (1943), de Hermann Hesse (1877-1962), que é considerado o testamento literário do escritor germano-suíço. Trata-se de uma visão de um futuro, uma distopia – ou, melhor, uma antiutopia –, na qual nossa civilização, sobretudo nossas artes e nossa ciência, será preservada a partir de um jogo lúdico por ele imaginado. Abandonei essa “viagem” no comecinho. E al- go parecido se deu com Auto-de-fé (1935), de Elias Canetti (1905-1994), a estória do professor Peter Kien, filólogo e sinólogo, homem excêntrico e solitário, que, expulso da sua imensa biblioteca, da sua “caverna”, é levado a conhecer o mundo exterior, topando com as suas inúmeras personagens, reais ou fictícias. É um livro enorme. Culto. Não consegui ler. Parei.

O jogo das contas de vidro e Auto- -de-fé, curiosamente, são ditos “livros para escritores”. E se o primeiro requer um bom conhecimento de música (não é o meu caso), Auto-de-fé é um “livro sobre livros”, o que é uma das minhas paixões. Deveria, portanto, adorá-lo. Uma explicação para tê-los abandonado é que talvez eu não estivesse preparado, à época, para essas leituras. Mas também já li que isso é um fenômeno comum. Simplesmente, mesmo em se tratando de vencedores do Nobel de Literatura, o livro não bate. E temos de aceitar isso.

De toda sorte, sinto-me em dívida para com Hesse e Canetti. Rebelei-me contra eles. Fugi dos seus mundos.

Quanto a Hesse, preocupo-me menos. É um “querido”, como se diz hoje em dia. Li-o em outras versões. E, pelo que aprendi com Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em A história concisa da literatura alemã (Faro Editorial, 2013), a própria vida de Hesse foi marcada por rebeliões e fugas: contra a educação religiosa de seus pais; contra os secos estudos clássicos; contra a educação físico-militar e a sua disciplina; contra a moral burguesa e o casamento; contra o militarismo e imperialismo da Alemanha. Então, se me rebelei e fugi do seu “Jogo”, ele vai entender. Assim acredito.

Mas não estou certo disso quanto a Elias Canetti. É verdade que Canetti, embora nascido no que é hoje a Bulgária, viveu em vários outros países. Mas acredito que foram fugas forçadas por conflitos e guerras. Ele graduou-se em química – que é profissão séria! Era um teórico da linguagem e da sociedade. Um filósofo e um memorialista do seu tempo. E o seu anti-herói, o professor Peter Kien, claro, odiou quando foi “fugido” da sua biblioteca. Visto isso, arrependo- -me da minha rebeldia. Devo voltar ao Auto-de-fé. Logo. E talvez escrever algo sobre ele aqui.

E, agorinha mesmo, acho que vou “fugir” esse Auto da biblioteca do meu pai, uma Babel que é para mim, nesse sentido, sempre infinita.

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