Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
Uma façanha pouco digna

Vladimir Souza Carvalho
Magistrado
vladimirsc@trf5.jus.br

Publicado em: 23/01/2021 06:40 Atualizado em:

Desde que comecei a participar dos jogos de botão, os mais enaltecidos eram os botões de capa colonial, que, pelo tamanho, se adaptavam bem a madeira do campo, e, nesse sentido, eram bons atacantes. E, aliás, essa conversa a gente ouvia dos mais velhos e repassava para os mais novos. Botão de capa. A capa era de um tecido bem grosso, de um cinza cheirando a preto, muito usada na feira, pelas pessoas oriundas dos povoados, nos dias de chuva que o inverno proporcionava. A gente ficava, então, de olho, desejando o botão das velhas capas alheias. Quem os tinha em seu time, se vangloriava. Quem não os tinha, morria de inveja.

É certo que, além da capa colonial, existiam outras, de tecido mais fino, geralmente de um cinza esbranquiçado ou levemente azulado. Além do guarda-chuva, usava-se a capa, quem condições financeiras usufruía. Lá em casa ninguém tinha capa, nem se sentia habilitado a pedir. Era vestimenta que não fazia parte da conveniência do bolso de papai.

No ginásio, um professor costumava ir para a aula de capa. Lá chegando, a capa ficava solitariamente na sala dos professores, enquanto ele dava aula. Eu e Luiz Carlos – que jogávamos botão -, cobiçosamente, voltamos os olhos para os botões da capa, botões, aliás, que nem sabíamos o tamanho. O plano diabólico foi arquitetado. A sala dos professores passava o dia inteiro de porta aberta, e, na maioria das vezes, não tinha ninguém por lá. Então, eu me encarregaria de vigiar. Luiz Carlos, mais arrojado, de gilete na mão, entraria para arrancar botão por botão. A possibilidade de sermos pegos em flagrante não foi aventada. Idos de 1963. Colocamos o plano em prática. Tudo saiu como planejado. Tintim por tintim. Ufa!

Decepção total. Os botões eram pequenos. Não tinham serventia alguma para serem utilizados no jogo, nem poderíamos devolvê-los. Ninguém seria tão parvo assim. O mais chato foi não termos tido nenhuma notícia do professor quando, de volta à sala, percebeu que os botões de sua capa tinham todos ido embora. Frustrante não ter sabido da sua reação. Mais tarde, em idade maior, armamos outras presepadas. Faltou, como a dos botões, saber a reação das vítimas. Qualquer palavra de curiosidade simbolizava confissão de culpa. Boca fechada. Ainda hoje.  


Covid longa preocupa OMS e desperta desafios
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 25/02
Bolsonaro diz não ter briga com a Petrobras
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 24/02
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco