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Opinião
Letras, sons e imagens

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República. Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King's College London - KCL

Publicado em: 13/01/2021 03:00 Atualizado em: 13/01/2021 06:43

Embora possa parecer algo pessoal, vou confessar uma coisa: adoro misturar a leitura de um livro com a adaptação dele para a tela, seja a grande (do cinema) ou a pequena (da TV, hoje já não tão pequena assim).

Relembro-me da satisfação – prazer estético mesmo – que tive quando li As sandálias do pescador (The Shoes of the Fisherman, 1963), o romance de Morris West (1916-1999), antecipando a eleição de um papa do leste europeu quinze anos antes da entronização de Karol Wojty%u0142a (1920-2005) como João Paulo II, ao mesmo tempo em que assistia ao premiado filme homônimo, direção de Michael Anderson, com Anthony Quinn, John Gielgud, Laurence Olivier, Vittorio De Sica, Oskar Werner, David Janssen e outros bambambãs. A mesma coisa se deu com O nome da rosa (Il nome della rosa, 1980). Poucos livros me encantaram tanto quanto o romance de Umberto Eco (1932-2016). A temática e a qualidade tiveram um papel fundamental nisso. Mas devo também o meu deleite a ter assistido a algumas cenas do filme homônimo, Der Name Der Rose (1986), dirigido por Jean-Jacques Annaud e estrelado, entre outros, por Sean Connery, Christian Slater e F. Murray Abraham. Essa experiência me fez enxergar o cenário onde se passam os sete dias de “crimes e castigos” imaginados por Eco no livro, sobretudo a abadia medieval e sua labiríntica biblioteca.

Assim o fiz também com três séries de TV que foram fundamentais à minha formação: Civilização (Civilisation, 1969), A escalada do homem (The Ascent of Man, 1973) e A era da incerteza (The Age of Uncertainty, 1977). Produzidas pela BBC, essas séries nos apresentam, sob a visão de Kenneth Clark (1903-1983), Jacob Bronowski (1908-1974) e John Kenneth Galbraith (1908-2006), a história da humanidade através das artes, da ciência e da economia/sociologia, respectivamente. As séries foram transformadas em grandes livros. Li-os também. Aqui ainda entra uma outra coisa que adoro: a “divulgação científica”. E entendam ciência em um sentido mais amplo para englobar todo tipo de conhecimento, indo da arte à economia ou à astrofísica. Simplesmente fantástico.

Mas, nessa mistura de letras, sons e imagens, faltava o livro de uma série que vi com meu pai e revi outras vezes sozinho (já que ele, posando de cientista, alega estar a série “datada”): Cosmos (Cosmos: a Personal Voyage, 1980), de Carl Sagan (1934-1996), o astrônomo, físico, biólogo e badalado ativista e divulgador científico. Sagan é roteirista e apresentador da série. Achei o dito cujo. Falo do livro: Cosmos – Carl Sagan, numa coedição da Francisco Alves e da Editora de Universidade de Brasília, de 1981. Quase uma raridade. Foi num pequeno sebo, em Natal, dito orgulhosamente “O sebo”. Bendito seja esse comércio!

Livro e filme ou livro e série, seguramente, não são a mesma coisa. Isso é verdade. Nas palavras do próprio Sagan, quanto ao seu Cosmos, “o livro e o seriado evoluíram juntos. De alguma forma, um se baseia no outro. Muitas ilustrações neste livro são baseadas em visuais magníficos preparados para a televisão. Mas livros e séries televisivas têm audiências um tanto diferentes, e permitem vias de acesso diferentes. Uma das grandes qualidades de um livro é que é possível ao leitor retornar várias vezes a passagens obscuras ou difíceis; isto começa a ser possível, com o desenvolvimento da tecnologia do vídeo-tape e do vídeo-disco para a televisão [aqui está ‘datado’ mesmo, e tenho de dar parcial razão ao meu ‘Januário’]. Há muito maior liberdade para o autor na escolha do alcance e profundidade dos tópicos de um capítulo em um livro do que os cinquenta e oito minutos e trinta segundos observados com real atenção de um programa de televisão não-comercial. Este livro mergulha mais profundamente em muitos tópicos do que a série para a televisão. Há assuntos apresentados no livro que não aparecem na série e vice-versa”. Livro e série se completam. E isso é uma regra (embora possa haver exceções). Já vou desfrutar dessa completude como leitura de verão.

Um viva para as letras, os sons e as imagens. Outro para o Cosmos e todos os seus sebos.

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