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Opinião
Grito ético e os urros das feras

Fernando Araújo
Advogado, professor, mestre e doutor em Direito. É membro efetivo eleito da Academia Pernambucana de Letras Jurídica - APLJ

Publicado em: 27/01/2021 03:00 Atualizado em: 27/01/2021 06:42

Um dos mais importantes gritos éticos da história foi o de Antígona, na tragédia grega de Sófocles, composta por volta de 442 AC. Mulher corajosa, ela confrontou o autoritarismo do rei de Tebas, Creonte, que, por decreto, havia impedido o sepultamento do irmão dela, Polinice.

O monarca escreveu com palavras duras: “Ninguém poderá enterrá-lo, velar-lhe o corpo, chorar por ele, prestar-lhe, enfim qualquer atenção póstuma. Que fique exposto à voracidade dos cães e dos abutres [...]”.Antígona protestou com veemência, mostrando que ele não podia legislar contra a lei humana, a de sepultura, uma vez que os deuses do Olimpo estabeleciam o direito das famílias de prantear e inumar seus parentes.

Estava posto o conflito: os reis e os príncipes podem muito, mas não podem tudo. Seu poder de legislar e governar teria limites éticos. Eles não podiam ofender a lei natural ou humana. A propósito disso, São Tomás de Aquino escreveu que “A lei injusta não é lei, mas corrupção da lei”.

A vida tem mostrado que durante as noites mais traiçoeiras, quando as feras urram e mostram os dentes afiados, atacando os valores universais da dignidade, liberdade e igualdade, ao final, sempre alguém aparece para defender a civilidade. Defender a casa comum. Defender a vida. Assim fizeram também os líderes mundiais depois das atrocidades da 2ª Grande Guerra Mundial. Nela foram mortos cerca de 45 milhões de pessoas, entre os anos de 1933 e 1945.

E as motivações das feras são recorrentes: xenofobia, supremacia racial, aversão à democracia. Oposição à ideia de que toda pessoa merece igual respeito e consideração.

Após o mundo assistir à ascensão de um nacionalismo populista e de ideologias totalitárias, buscando ferir de morte minorias étnicas, religiosas e políticas, eis que uma voz se levanta nesse momento e apresenta novo grito ético. O povo decidiu por esse caminho, depois do maior comparecimento às urnas jamais visto na história dos EUA. Refiro-me ao recém-empossado presidente Joe Biden.

Em seu discurso de posse ele disse: “Este é o dia da América. Este é o dia da democracia. Um dia de história e esperança. De renovação e determinação. Passando por um calvário não visto há séculos, a América foi posta à prova mais uma vez. E a América se ergueu para enfrentar o desafio”.

Emocionado, ressalto esse momento singular na história da humanidade. E o faço lembrando palavras imorredouras do mestre Amaro Quintas, ao recepcionar o poeta Carlos Moreira na Academia Pernambucana de Letras, em momento político também difícil. São suas palavras: “Pior do que a traição dos intelectuais é o seu silêncio. A sua omissão. O seu acumpliciamento perante o crime. A sua acomodação. O seu acovardamento”.

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