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Opinião
As lições pós-pandemia de Fareed Zakaria

Maurício Rands
Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Publicado em: 18/01/2021 03:00 Atualizado em: 18/01/2021 05:55

Na última coluna neste Diario de Pernambuco, comentei os primeiros cinco temas tratados por Zakaria em seu recente livro (Ten Lessons for a Post-Pandemic World, 2020). Agora, trato das outras cinco lições.

1.Somos animais sociais. A ONU estima que em 2050 mais de dois terços da população viverão em cidades. Zakaria mostra por que as cidades proporcionam tantas vantagens às pessoas. Proximidade e diversidade potencializam a criatividade, a inovação e o comércio. Tudo isso aumenta a produtividade, que é o motor do desenvolvimento de animais sociais como os humanos. A pandemia legou-nos a percepção de que as cidades precisam mudar.  De cidades compartimentalizadas podemos evoluir para cidades integradas na diversidade de suas múltiplas funções: residência, trabalho, comércio, indústria, serviços, lazer. Uma cidade de 15 minutos, como propõe o novo plano da prefeita Hidalgo para Paris. Em que todos estejam a uma distância viável a pé ou de bicicleta de todos os lugares em que precisam estar. Por isso, o antigo movimento do NIMBY (‘not in my backyard’) está sendo substituído pelo californiano movimento YIMBY (“yes in my backyard”) para que as cidades reúnam todas as atividades necessárias à vida. O isolamento durante a pandemia relembrou-nos das vantagens de termos cidades abertas onde possamos conviver.

2.As desigualdades vão aumentar. Estudos calculam que entre 70 e 430 milhões de pessoas voltarão à extrema pobreza nos próximos anos. Pelo elementar motivo de que a pandemia deslocou economicamente os que já eram desfavorecidos. Geográfica ou socialmente. Os países não desenvolvidos sofreram mais. E os pobres, em todos os lugares, foram mais duramente atingidos pela pandemia.

3.A globalização não está morta. A Covid-19, de início, impeliu governantes ao apelo fácil do populismo nacionalista e protecionista. “Temos que mudar a dinâmica das cadeias mundiais de suprimentos”, foi a resposta senso-comum. Ocorre que a reconstrução da produção doméstica contraria a grande força da vantagem comparativa. A especialização. E, portanto, a maior produtividade na criação dos mesmos bens e serviços. Afinal, a globalização surgiu do fato econômico óbvio de que é mais fácil para qualquer país se especializar em certas áreas. Ademais, a economia digital é global pela própria natureza. E ninguém desconhece que, para elevar seu padrão de vida, as nações precisam encontrar meios de vender e comprar do resto da humanidade.

4.O mundo está se tornando bipolar. Muito se fala de um declínio americano. Um país que tem mais mortes por armas de fogo e por violência policial discriminatória. A maior população carcerária do planeta. Sem sistema de saúde universal e com profunda divisão racial. Não obstante, o país segue sendo o mais avançado tecnologicamente. A reserva mundial de valor segue sendo o dólar e é seu o maior poderio militar do planeta. Por outro lado, a ascensão da China tem sido vertiginosa. Ela que, até o Século 14, sempre foi a maior economia. Voltará a sê-lo no máximo até 2050. Hoje, a parcela chinesa do PIB global é a segunda, maior que a soma dos quatro países que se seguem no ranking. Constatando que a corrente de comércio entre as duas atuais superportências chega a US$ 2 bilhões por dia (o mesmo valor que EUA e URSS, na guerra fria, faziam em um ano), ele deduz que existem fortes incentivos para a cooperação entre os EUA e China. Esta interdependência que abrange outras regiões produziu um mundo mais multilateral, embora com alguma dose de bipolaridade que pode ou não reproduzir uma situação de guerra fria.

5.Às vezes os maiores realistas são os idealistas. Uma primeira resposta à pandemia foi a de um esforço nacional individual. Mas, em seguida, viu-se que as cadeias produtivas globais tinham que ser acionadas. Assim como a cooperação internacional. Aprendendo com o multilateralismo dos presidentes americanos Woodrow Wilson, Roosevelt, Truman e Eisenhower,  Zakaria conclui que mesmo líderes que chegaram ao poder com forte dose de pragmatismo depois descobriram que a cooperação pode produzir resultados mais concretos do que o protecionismo nacionalista. Os países com lideranças responsavelmente idealistas (e pragmáticas) saíram-se melhor na crise da Covid-19. Outros, com lideranças fracas, incompetentes e pouco idealistas, como EUA, Reino Unido e Brasil, não conseguiram reduzir o impacto da pandemia. Zakaria conclui seu livro enfatizando que as escolhas estão abertas. Ao invés de acentuar confrontações como a dos EUA vs China, podemos fazer escolhas. Tentar criar a vontade política para viabilizar a cooperação para enfrentar as próximas pandemias, as mudanças climáticas, a pobreza e as guerras cibernéticas. Por sabermos que não existem destinos previamente escritos e definidos.

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