Diario de Pernambuco
Diario de Pernambuco
Digital Digital Digital Digital
Digital Digital Digital Digital
Opinião
A margem

Sérgio Jacobovitz
Oftalmologista

Publicado em: 26/01/2021 03:00 Atualizado em: 26/01/2021 06:33

Época de pico da pandemia que nos assola há uma translação completa do planeta ao redor do sol. O dia mal amanhece e desperto no Recife. Decido ir caminhar na praia munido de uma máscara de proteção. Após 1/4 de século morando fora, sinto-me um turista em minha cidade natal; um olhar novo sobre o já conhecido aguça minhas reflexões.

Prédios de tamanhos irregulares em linhas sequenciais lembram-me as arcadas de um tubarão. Todavia, há uma margem, um limite preciso, uma linha demarcatória onde o predador há de se resignar não havendo mais possibilidade de avanço: a Avenida Boa Viagem e o calçadão proíbem o avanço voraz das construtoras e da especulação imobiliária que ferem e desfiguramf a face original da urbe.

Do outro lado, a praia, o oceano e o céu se apresentam como na época de seus surgimentos: imponentes. O mar estende-se além dos limites da visão, livre da criatividade e saberes destrutivos do homem. Nada acima da superfície do mar, além do céu. Dou as costas às edificações, um ato de repúdio, e contemplo o espetáculo sagrado do amanhecer nublado do mar em tons de cinza-esverdeado, com o horizonte delineado em negro indicando chuva que se aproxima. Sinto a textura da areia que se afunda sob os meus calcanhares e a carícia sutil da brisa constante. O cheiro do sal e o som das ondas suaves quebrando na rebentação são incenso e mantra nesse templo sagrado que resiste à profanação. Sobre a areia, pequenas conchas, fragmentos de corais e pedrinhas, cada qual com suas formas, simetrias e cores, são uma desconcertante metáfora física: “decifra-me ou devoro-te”, diz a areia da praia....  

Chego à parte onde o chão se faz mais sólido. Ao longe vejo uma aglomeração de moças, vestidas em branco.... O que será? Uma seita religiosa a se purificar nas águas? Aproximo-me mais um pouco, observo que o festivo grupo não é adepto aos cuidados mínimos para consigo mesmas, suas famílias e tampouco com os seus demais semelhantes. Nenhuma delas, contei 30, nem os fotógrafos que documentavam suas imagens de vestais, usa máscara facial ou demonstra qualquer preocupação com um distanciamento mínimo, de onde as pequenas partículas oriundas de suas cavidades naturais não atinjam às dos outros...Parcialmente chocado, numa época em que a vacina ainda é uma realidade precária e as unidades de cuidados intensivos são disputadas, tento racionalizar: possivelmente um grupo de fiéis que acredita que a fé remove montanhas e a crença no ser supremo redime-nos de todo mal. Chegando um pouco mais próximo, vejo adornos trazidos para a cerimônia: um coração e letras quase do tamanho de uma pessoa, mas ainda distantes para serem lidas. Pela alegria das jovens, que agora se abraçam, riem, bebem e se fotografam, deve tratar-se de um ritual de passagem, mas de que tipo?

Finalmente consigo ler as letras enigmáticas: “enfermagem”. Pasmem, senhoras e senhores, é isto mesmo: “enfermagem”. Esta metáfora, agora urbana, se apresenta tão enigmática quanto a primeira e acima de qualquer tentativa de racionalização: formandas de um curso de saúde aglomeram-se festivamente, desafiando a praga do século 21, a moderna peste-negra, com seus alvos trajes de debutantes...Belo começo para profissionais de saúde.... O que esperar de uma sociedade onde a elite do conhecimento se apresenta publicamente, desnuda e sem pudor e posiciona expectativas pessoais acima das regras de cuidados básicos de saúde em tempos de desgraça? “Decifra-me ou devoro-te”...

Passo do grupo e torno a olhar para o outro lado, o lado sagrado, belo e intocado. Emociono-me com a paisagem ao mesmo tempo suave e imponente. A brisa se faz vento, as águas agitam-se um pouco, gotas finas da nuvem começam a eriçar a lâmina de água e a chuva agora finalmente faz-se presente. Como uma cena apocalíptica, uma fenda racha a nuvem escura deixando vazar raios dourados que se contrastam com o pano de fundo cinza: contradição harmônica de luz e sombras. O mar, agora com intensas espículas causadas pela chuva grossa, lembra um animal atiçado.... Não consegui conter minha emoção, com os pés mergulhados nas águas mornas, senti as rajadas de gotas frias que me massageavam, momento de quase-iluminação, olhos molhados de água e sal, mas não do mar e nem da chuva...

Volto-me para trás, chuva redentora de Saramago no seu Ensaio sobre a cegueira: o grupo festivo bateu em retirada... das letras que compunham o nome original de seu curso, apenas 6 restaram em pé: “RMAGEM”- um mistério, seria um anagrama para “MARGEM”? Decifra-me ou devoro-te!

Covid longa preocupa OMS e desperta desafios
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 25/02
Bolsonaro diz não ter briga com a Petrobras
Manhã na Clube com Rhaldney Santos - 24/02
Galeria de Fotos
Grupo Diario de Pernambuco